1 de setembro de 2008

Jag heter Joana

Eu chamo-me Joana

17ºC em Estocolmo, 25ºC em Portimão

O dia começou com um duche de água fria… literalmente! A sério, é tão bom uma pessoa pensar em tomar um bom banho quente e lavar a cabeça, para descobrir que afinal só tem água gelada…

Enfim, levantei-me mesmo bastante cedo para garantir que não havia atrasos, e às 8h25 já estava a caminho do local da primeira reunião. Quando cheguei estavam todos em rodinha, encostados à parede, sem falar… Chego lá e digo: “Eu sou a Joana, de Portugal” e desatou tudo a rir… Aparentemente, as pessoas anteriores não tinham feito isso. Lá se apresentaram, uns e outros, mas escusado será dizer que não apanhei metade dos nomes, não porque não tenha prestado atenção, mas porque alguns nomes são tão estranhos que nem à terceira conseguimos compreendê-los. Mas algumas das raparigas que eu já conhecia, quer pessoalmente, quer via Internet, já estavam lá, o que tornou tudo mais fácil. Presente estava também o Mario (alemão) com a sua namorada, Carolina, que é uma brasileira do Recife! Um dos melhores momentos do dia foi mesmo passado a falar com ela e, como ela própria disse, “Sabe tão bem falar português depois deste tempo todo!” (ela está a estudar na Alemanha).
Daria, Shermaine, Ghazal, Sharon, Mustafa, Haydem, Clarissa, Espen, Xinming, Eli, Karin, Iskra, Mario, Su, Giulia, Marika e Irina são os nomes que aprendi até ao momento. Uma boa parte das conversas, durante a manhã, consistiram no habitual: “Como é que te chamas? E és de onde?”
Se os nomes são difíceis de apanhar, os países não o são tanto. Ainda assim, como dizia o Mustafa quando eu lhe disse que era de Portugal (não sei se ele sabe mesmo onde é, lol): “Wow, têm mesmo pessoas do mundo TODO” (tipo até desse fim de mundo que é Portugal, lol). Portugal, Alemanha, Ucrânia, Rússia, Itália, Suécia, Egipto, Bangladesh, China, Singapura, Peru, EUA, Canadá. O grupo é realmente muito diverso e é isso que lhe confere a sua riqueza, como disse a nossa directora de estudos.
A recepção foi óptima, fizeram-nos uma introdução à universidade, do género tamanho, localização, nº de alunos e investigadores, nº de publicações em revistas científicas por ano (4000). Sobre o curso, os seus objectivos, as suas saídas (afinal parece que não vamos todos para o desemprego :D), a sua estrutura. Aqui tudo tem uma lógica, tudo é pensado ao detalhe, e essa lógica é-nos comunicada, para que não fiquemos a pensar durante três anos : “Afinal porque é que tive aquela cadeira?”
Logo durante a apresentação houve um momento giro. Sentei-me entre duas raparigas, a Ghazal (uma iraniana a viver na Suécia) e a Karin (uma típica sueca, bonita, loura, com olhos azuis); a Karin, quando ouve que sou de Portugal, pergunta: “A sério? De que parte?” Achei a pergunta estranha, mas respondi: “Algarve” ao que ela responde, entusiasmada: “Vim de lá há dois dias!!!” Lol e ainda dizem que o mundo não é pequeno…
O nosso director do mestrado e a directora de estudos são mesmo muito simpáticos, fizeram-nos sentir completamente à vontade e mostraram total disponibilidade para nos ajudar em tudo o que precisássemos. A seguir falou a “Student’s Advisor”, que supostamente é alguém a quem devemos recorrer se estivermos com problemas a algumas cadeiras, se acharmos que um professor foi injusto para nós, ou somente para pedir conselhos no geral. Ela começou logo por nos dar alguns: “Não estejam à espera que todos os professores vos dêem uma palmadinha no ombro quando passarem aquele exame particularmente difícil, porque muitos não o farão. Dêem essa “palmadinha” a vocês mesmos e tirem algum tempo livre, uns dias sem estudar, como recompensa. Porque toda a gente sabe que estes anos vão ser muito exigentes mas serão também, eventualmente, os melhores anos da vossa vida e não há nada como aproveitar a vida de estudante!”

Depois das informações gerais, tivemos algum tempo de intervalo até ao início a visita ao campus, logo, gerou-se logo imensa conversa na sala, em vários grupos; acabei por trocar números com imensas pessoas, apresentar-me, saber de que cursos tinham vindo. É giro ver na mesma sala pessoas tão diferentes, não só em termos de cor, idade ou credo, mas em termos de background científico – desde médicos a biólogos moleculares, biotecnólogos (como dizia o Laires) ou biofísicos.
Gerou-se imediatamente uma química engraçada entre as raparigas que vão morar juntas, ou seja, eu, a Daria (Rússia), a Clarissa (Perú) e a Shermaine (Singapura). A Clarissa é a única que está num andar diferente, mas aquilo deve ser mesmo muito giro… Por coincidência, a nossa guia (mais uma iraniana naturalizada sueca) morou lá o ano passado e adorou, diz que fez imensas amizades. Mal posso esperar… O único problema é mesmo a falta de internet, mas ela também nos disse que há wireless no 1º andar, logo, podemos sempre levar os portáteis para lá. Nós as 4 já combinámos um jantar para “criar laços” mal eu chegue à residência.
É giro ver como as pessoas se agrupam. Nós, que já nos conhecíamos, ficámos juntas; outras pessoas procuram alguém com quem falar na mesma língua, por exemplo, formou-se o grupo dos chineses, o grupo dos suecos, o do Bangladesh juntou-se a outro que eu acho ser indiano (mas não tenho a certeza)… Tal como eu, a dada altura, comecei a conversar alegremente com a brasileira. Mas também falávamos entre grupos, é claro, e acabou por se desenvolver uma convivência agradável. Foi também ver o que cada um de nós tinha em comum com os outros: a sueca que já tinha estado no Algarve, por exemplo; mas ainda mais gritante foi o número de pessoas ligadas a Heidelberg / Alemanha em geral. O Mario fez a licenciatura em Heidelberg, eu entrei em Heidelberg, a Iskra estudou em Heidelberg, a Daria fez projecto num sítio qualquer da Alemanha, a Su também é alemã… Não sei, às tantas parecia que, no mesmo grupo, quase todos tinham algo a dizer sobre a Alemanha.

A visita guiada ao campus, feita pela iraniana/sueca mais velha que nós, incluiu informações úteis de todos os tipos, desde a localização de paragens de autocarro e salas com microondas para aquecer comida de casa (não fazem ideia da quantidade destas que existe no campus) até aos locais onde ocorrem as festas mais cool da universidade ;)

Depois da visita, almoço oferecido num dos vários restaurantes do campus. Até estava bastante bom, era frango com arroz de ervas aromáticas e salada… O tipo de comida que toda a gente reconhece e à qual ninguém torce o nariz :) Fiquei sentada com o Espen (EUA), a Daria, a Clarissa, a Shermaine e em frente à italiana, Giulia. É simpática, mas comparativamente à Clarissa, por exemplo, esta última é muito mais expansiva e latina. Para terem uma ideia, quando chegou, de manhãzinha, pôs logo o pessoal todo a rir, porque as primeiras palavras que disse foram: “Hi, I am Clarissa… Where is the toilet?”
As conversas ao almoço foram bastante divertidas, principalmente devido aos contributos do Espen, e às tantas lá foram desembocar na política e nas eleições americanas. Às tantas a Daria, desesperada, dizia: “Eu sou cientista, não percebo nada de política!” e parámos com a conversa. A Clarissa diz: “OK (que ela pronuncia à espanhola, logo, soa do género ou-ké). What do you think of the glucocorticoid receptor?” Claro que toda a gente na mesa desatou a rir mais uma vez…
Depois de almoço, tempo para burocracias. Consegui o meu cartão de estudante imediatamente, mesmo com fotografia tirada na hora (que, surpreendentemente, nem ficou mal!), bem como o meu endereço de email. Nas filas, enquanto esperávamos, a conversa corria, mais uma vez…

De seguida, fomos ainda visitar o outro campus, que é bastante longe (25 minutos de autocarro). E é enorme! Tem um hospital bastante maior que Sta. Maria, e vários edifícios envidraçados, em que contei, só nos poucos sítios por onde passámos, 5 restaurantes diferentes… Lá nos mostraram a localização da primeira aula, para não nos perdermos na 4ª feira, e levaram-nos a uma sala de aula onde nos apresentaram a estrutura do primeiro módulo.

E o primeiro módulo é, realmente, muito muito importante. Algumas pessoas poderão achar um bocado seca, porque não é sobre nada mas ao mesmo tempo fornece as bases sólidas de tudo aquilo que vamos aprender e produzir ao longo da nossa carreira. Pensamento crítico, escrita científica, produção de posters, apresentação oral (incluindo uma aula com uma actriz sueca sobre postura, colocação da voz e linguagem corporal) e inovação e gestão de projectos são ferramentas essenciais para qualquer cientista em qualquer área… Claro que não é nem biologia, nem química, nem matemática, e talvez por isso os vários professores que tive empurrassem a responsabilidade de nos ensinar essas competências de uns para outros, sem que nenhum deles tomasse realmente o problema em mãos… Estou bastante entusiasmada porque até agora, sito que faço muitas das coisas que faço (relatórios, apresentações) por intuição e auto-aprendizagem e esta é uma oportunidade de melhorar e ver o que tenho feito mal…

No fim desta apresentação, voltámos ao outro campus. Esta última viagem de autocarro foi particularmente engraçada, por causa do Espen. Eu já sabia que ele falava português (aparentemente começou a aprendê-lo porque ouviu música brasileira, achou linda e quis saber o que as palavras queriam dizer), mas ele não só fala português (e razoavelmente bem!) como diz meia dúzia de frases em várias línguas, desde russo, sueco, norueguês a chinês! Às tantas começa a falar sueco com a nossa directora de estudos, até que ela lhe diz: “Your swedish is actually very good”, ao que ele responde com um “Muitíssimo obrigado!” Lá tive eu que traduzir para a coitada da senhora que, obviamente, não percebeu patavina…


No geral, acho que o grupo se deu bem e que vai ser mesmo muito giro. Ainda não tirei fotos, porque achei que no primeiro dia era demasiado estar logo a apontar flashes à cara das pessoas (ainda por cima o meu flash!), por isso amanhã é que vou passar ao ataque ;)

Para amanhã, está planeada uma visita a Estocolmo, jogos e oferecem-nos o almoço outra vez, por isso não tenho do que me queixar :D Espero então amanhã continuar as conversas iniciadas hoje e começar mais umas quantas, eventualmente mesmo com pessoas que hoje estiveram mais à parte… E depois, 4ª feira começa o trabalho sério :(

2 comentários:

Cristiana disse...

Estas aventuras são fantásticas... Só gravado! Até fico com uma pontinha de inveja... lol tou a gozar! 'Tou muito feliz por ti miúda!! Estás aí para colocar o nosso país no mapa LOOOL

Beijinhos gigantes

Janebloom227 disse...

Com este comentário comecei a considerar alterar o nome do blog para algo como "As aventuras de Joana em terras da Suécia"... lol Beijinhos