21 de dezembro de 2008

Jul

Natal

0ºC em Estocolmo, 19ºC em Portimão

Com as últimas aulas e apresentações, festas ou saídas quase todos os dias e a azáfama das compras de Natal, claro que houve eventos a ficarem de fora deste blog, como o nosso fantástico jantar de tacos na semana passada.


Eu, Gustavo, Katarina e Neil; em baixo: Espen, Clarissa e Shermaine

No entanto, achei que era mais interessante dar-vos uma perspectiva do Natal na Suécia, em termos de tradições, e meter lá pelo meio o nosso jantar de natal do corredor e outras coisas interessantes.
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Decorações

Dizia-me o Niklas, aqui há tempos, que Estocolmo no Natal é mais bonita, porque as iluminações de Natal tornavam a cidade mais luminosa numa altura em que o dia dura em média 5 horas. No entanto, só quem nunca viu as decorações em Lisboa é que pode dizer que estas são alguma coisa de especial – muito pobrezinhas mesmo. Sim, há umas luzinhas por cima de meia dúzia de ruas, na maioria delas mesmo só luzes, sem nenhumas formas alusivas ao Natal; nas mais imaginativas, lá se vê umas estrelinhas. Mesmo as árvores de natal são sem graça.


Decorações em Lisboa, o ano passado...

E em Estocolmo, este ano: querem comparar?

Uma excepção: as decorações de Natal do NK, o maior (e mais caro) centro comercial da cidade, com um gigantesca árvore suspensa do tecto e montras de Natal lindas, como nunca vi.

Quanto às decorações dentro de casa, a nossa “housekeeper” foi simpática ao ponto de nos pôr umas quantas no corredor, para alegrar. Isso e umas velas de Santa Lucia na sala de estar.


Velas de Sta. Lucia na nossa janela

Passo a explicar: todas as casas suecas têm dois tipos básicos de decoração de Natal, tão importantes como a árvore de Natal: uma estrela (ou mais) pendurada à janela, que dá um efeito espectacular quando todas as janelas de um prédio têm as estrelas acesas, à noite; e as velas de Santa Lucia, um feriado religioso que cá na Suécia é tão importante como o Natal.
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Santa Lucia

Não está directamente relacionado com o Natal, mas faz parte da época de Natal cá na Suécia. Dia 13 de Dezembro é dia de Santa Lucia, uma santa italiana que, na época do Império Romano, escondia cristãos nas catacumbas e, para iluminar o caminho, usava uma coroa com velas. Neste dia também se celebrava a Lussinatte, a noite mais longa do ano segundo o calendário antigo, em que espíritos maléficos e trolls andavam pelas ruas em busca de crianças que se portassem mal.

Ora os nomes Lussi e Lucia são parecidos, logo, juntaram-se os 2 numa celebração, com cânticos e procissões para afastar os espíritos, e em que há uma Lucia, agora loira, como convém na Suécia, apesar de a original ser morena, com uma coroa de velas, que serve vinho quente (glögg) e bolos feitos com açafrão e distribui doces às crianças.
Ser uma Lucia é uma grande honra na Suécia, e elas são escolhidas a dedo. Para além da Lucia, as raparigas que a acompanham também se vestem a rigor, com uma fita brilhante (tipo aquelas da árvore de Natal) na cabeça, e os rapazes usam uma veste tipo bruxo, com um chapéu em forma de cone e uma estrela na ponta de uma vara. Lol.
Como deverão imaginar, apesar de ainda se verem algumas raparigas na rua, mesmo sem fazerem parte da procissão, de fita na cabeça (até a Dasha aderiu à moda!), o mesmo não acontece em relação aos rapazes que, no máximo, colocam uma fita na cabeça como as raparigas em vez do suposto chapéu de fada com estrelinhas :D.
(Ora estão a ver a minha cara quando eu, sem saber de nada disto, vejo dois gajos a passear de fitinha de Natal na cabeça, não estão? Parecia que tinha ficado tudo doido de repente…)
As bonecas da esquerda representam as raparigas de Sta Lucia, com as fitas na cabeça; ao centro temos os rapazes, de cone na cabeça e estrela na mão; à direita, a Lucia, com a coroa de velas na cabeça.

A época de Santa Lucia é um pretexto para inúmeros eventos, tais como o baile de Santa Lucia, do qual já vos falei e mostrei fotos. Aqui ficam mais umas…

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Patinagem no gelo

Na época de Natal também se multiplicam as pistas de gelo em Estocolmo. A primeira vez fui com o Gustavo, um brasileiro cá do prédio (ver foto dos tacos, o que está ao meu lado!), e ele pagou e tudo para me ver fazer umas figuras monumentalmente parvas, lol. Nota mental: nunca mais ir patinar no gelo com um rapaz na “first date” – ok, foi uma saída de amigos, mas ainda assim…
A segunda vez foi com muita gente do curso. O Niklas assumiu o papel de meu professor e de me fazer descolar do poste (eu andava sempre agarrada para não cair) e até fez um bom trabalho, no fim já conseguia andar uns 15 metros sozinha sem cair. Depois de cair umas 8 vezes, lol. Fiquei cheia de nódoas negras mas diverti-me imenso… Quem não se divertiu foi o Mustafa, que deu uma queda (melhor dizendo, caiu um porradão), ficou com o braço inchado e depois de ir às urgências achando que tinha o braço partido, descobriu que tinha uma hemorragia interna na zona do cotovelo… :-s

A Shermaine agarrada ao poste, como eu antes dela! Fomos as piores, mas eu ainda lhe ganhei em quedas: 8 contra 3...

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Compras de Natal

Começámos numa tarde como qualquer outra, com o Mario, Shermaine, Dasha e Espen, os rapazes convencidos de que comprariam tudo numa tarde, nós, raparigas, já sabendo que não seria assim.

A mim levou-me 4 tardes: essa, uma com a Dasha, duas sozinha. Os mercados de Natal de Estocolmo não são nada de especial, caros e pequeninos, em que as únicas coisas de jeito são a um preço impossível. Restam-nos assim as lojas normais, mesmo sabendo que não acrescentam nada ao que há em Portugal. Mas aqui e ali ainda se encontra qualquer coisa mais original ;) Agora é esperarem para ver!
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Jantar de Natal

O jantar oficial foi aqui no corredor, com 14 pessoas, 2 das quais à última da hora. A ementa foi: sopa de tomate (muito boa), baguette com um recheio de vegetais picantes, massa com cogumelos (demasiado picante), arroz com frutos secos a acompanhar um frango com vegetais e geleia de alperce, e para finalizar folhados de chocolate e de maçã, mousse de chocolate e menta e arroz-doce. Foi um regalo para o estômago e a parte da troca de prendas (num jogo de amigo secreto) foi interessante – eu recebi umas meias de reflexologia (lol) e umas decorações de Natal para a janela. A mais gira, que deu azo a uma gargalhada geral, foi a da Shermaine para o Albert, em que ela se lembrou a meter dentro do embrulho um pacote de 1 kg de massa – em alusão às quantidades imensas que ele come! Para beber, o tradicional “glögg” sueco e uma coisa alemã que não há jeito de eu perceber o nome, à qual se dá fogo antes de beber – sempre dá um efeito engraçado…

O jantar não-oficial foi improvisado aqui na nossa cozinha. O Mario tinha que fazer tempo até às 3 da manhã para ir para o aeroporto e achou que não era má ideia fazermos um jantar de Natal cá no corredor. Fizemos lasanha (ou, como dizia a Giulia, muito ciosa da sua nacionalidade italiana, “uma espécie de comida que tem a mesma forma que uma lasanha”) e panquecas (a cargo do Espen). Bebeu-se Grappa (trazida pela Giulia), Martini (da Dasha) e vinho do Porto, que nunca falta onde quer que o Mario vá, já que é a sua bebida de eleição (e eu convencer aquele pessoal que vinho do Porto não se bebe à refeição, mas sim como digestivo? Está bem está…)

E assim ficam as notícias natalícias cá da Suécia. Amanhã volto para Portugal, yey! Por isso provavelmente podem ouvir estas histórias e muitas mais em pessoa, num café perto de si :P

Vemo-nos em breve!!!

14 de dezembro de 2008

Nobel vecka

Semana Nobel

2ºC em Estocolmo, 11ºC em Portimão

Nota prévia: eu sei que tinha prometido cortar o tamanho dos posts, mas tem acontecido imensa coisa ultimamente e não tenho tido muito tempo para “bloggar”… por isso aqui vai :)

A contagem decrescente começou no dia em que foram anunciados os prémios Nobel deste ano e acabou esta semana, em que estes foram finalmente entregues.

A entrega dos prémios Nobel é o momento alto do ano, na Suécia. Como diz a Dasha, nunca se ouve falar da Suécia nas notícias, a não ser durante as semanas do anúncio e da entrega dos prémios Nobel. Observa-se uma mobilização geral da cidade, com toda a gente a respirar Nobel durante 7 a 10 dias. Ao que parece, as conferências pelos Prémios Nobel foram no domingo e na segunda, e a essas não tive oportunidade de ir. Houve ainda o concerto Nobel na terça, pela orquestra nacional da Suécia, cujos bilhetes esgotaram.

***

Quarta, então, foi dia Nobel. Dia da entrega dos prémios na ópera de Estocolmo e dia do jantar Nobel, na câmara municipal, um dos eventos de maior importância da Suécia. A Madelinde, do nosso corredor, ganhou a lotaria de bilhetes para ir (para os estudantes, só alguns bilhetes estão disponíveis e são sorteados), pagou os 160€ do bilhete e lá foi ela – deslumbrante!


Quanto a nós, ficámos a ver a transmissão televisiva a ver se a víamos… Aparentemente ela apareceu, mas nós é que não tivemos paciência para ver as 6 horas de emissão em directo, em que a maioria dos comentários não eram sobre os prémios Nobel mas sobre os vestidos da rainha e das princesas (e o príncipe sueco, se é giro!!!).
Houve dois momentos engraçados na cerimónia: um em que começou a música para um dos momentos de (mau) entretenimento, muito alto, e a câmara estava a filmar a rainha, que deu um pulo hilariante; e quando estavam a mostrar uma reportagem no Karolinska e a Shermaine exclama: “Aquele não é o Albert?” E lá estava o Albert, no seu laboratório, a trabalhar na bancada, de costas para a câmara. Como é que o reconhecemos? Pelo facto de a cabeça dele não aparecer na filmagem, só dos ombros para baixo (sim, que isto 2 metros de altura…)

Pelo que a Madelinde nos contou do jantar e, especialmente, da after-party, é algo de espectacular que vale bem o preço que se paga. A festa é composta de várias salas, cada uma com um tema, associado ao qual vem um certo tipo de bebida, comida e música. Por exemplo, havia uma sala com o tema “Charlie e a fábrica de chocolates”, em que só passavam músicas com o tema “candy”, comiam-se todo o tipo de doces e bebia-se Bailey’s; outra tinha o tema do mar, e nessa servia-se marisco e bebia-se champanhe; outra com o tema da floresta; uma lounge; uma tipo discoteca; um bar de gelo; e assim por diante, em cerca de 15 salas, pelo que ela diz.

***

Sexta-feira, na faculdade, também foi dia Nobel. Eu consegui com a devida antecedência os bilhetes para a conferência “Meet the Nobel laureates”, uma oportunidade de colocarmos questões aos prémios Nobel da Medicina e Fisiologia. Foi inesquecível, mesmo. Desde a maioria das perguntas colocadas, com respostas muito interessantes, ao facto de eu ter tido a coragem de fazer uma pergunta :)… (Eu fiz uma pergunta ao prémio Nobel!!!!! :D)
O Mario levou o seu peluche do HIV (giant microbes, lembram-se?) para assistir e, no final, ofereceu-o à Françoise Barré-Sinoussi, que lhe disse que o ia pôr na sua secretária. E tirámos fotografias com os prémios Nobel!!!

Eu e Harald zur Hausen, um dos galardoados


Eu junto a Françoise Barré-Sinoussi

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Sábado, à sua maneira, também foi dia Nobel, para nós. Por um lado, depois de uma sessão de compras de Natal por Estocolmo…

… fomos visitar o museu Nobel, que esta semana, em comemoração, era de graça. Tivemos visita guiada, o que é muito melhor, porque sem ela o museu não é assim tão interessante… Mas aprendemos imensa coisa sobre os ditos prémios, o seu fundador, particularidades de cada um, bem como factos sobre algumas das pessoas que o receberam.

Por fim, ontem à noite foi noite de baile de Sta. Lucia, um dos maiores eventos do ano na universidade, com os prémios Nobel da Medicina ou Fisiologia como convidados de honra. Não fui ao jantar porque não tinha vestido nem arranjei bilhete, mas fui lá ter para a “after-party”. Dizem que o jantar foi óptimo (o Niklas e a Marike, que foram), mas a after-party também foi o máximo. Fui com o Espen e o Mustafa, e lá juntámo-nos aos outros dois.

Afinal o baile… era mesmo baile. Com banda a tocar, valsas, jive e músicas conhecidas de todos como “Dancing queen” ou “New York, New York”. Dancei uma valsa com o Niklas, que não se safa nada mal, e depois de ele se ir embora com uma dor de estômago e de o Espen desaparecer porque aparentemente não se tinha apercebido de que um baile é uma festa em que se dança e ele não gosta desse tipo de coisas (LOL), ficámos eu, o Mustafa e a Marike. E foi um espectáculo :D

Dançávamos com o Mustafa alternadamente, a não ser uma dança irlandesa em que dançámos os 3, à maluca :D O Mustafa dança muito bem mesmo, não percebo aquela relutância em dançar nas últimas festas…
No final, começou música normal de discoteca, o DJ era bom e no final da noite eu e a Marike acabámos agarradas uma à outra a dançar (e cantar) “It’s raining men”, lol. Foi lindo e acho que há fotos comprometedoras, eu é que ainda não as tenho…

O engraçado foi que às tantas estava eu muito bem a dançar com eles os dois, e chega-se um tipo com o maior ar de “geek” ao pé de mim e diz-me (melhor frase de engate de sempre):
“You move your hips very well.”
E eu a pensar quem é este, ele apresenta-se (ainda hoje não sei dizer o nome) e depois cumprimenta a Marike e o Mustafa e vejo a Marike a falar com ele e ele depois ainda veio dançar comigo com interesse redobrado, a atirar-se que não era brincadeira… Em suma: aparentemente era uma estrela da TV sueca, de uns programas tipo reality show, e a Marike fez-me o favor de lhe dizer que eu era Portuguesa e como tal não sabia quem ele era, o que o fez ficar mais interessado e não me largar o resto da noite… Só é pena o Niklas já não estar lá para ver. Podia ser que se tocasse, visto ter sido o único rapaz que não me disse algo como “You’re really stunning” (Mustafa), “Muito bonita” (Espen) ou “You look fantastic!” (inglês do 1º andar do prédio). Pode ser que a Marike ou o Mustafa lhe contem…

Kanwal

-1ºC em Estocolmo, 15ºC em Portimão

Na segunda-feira tivemos mais um jantar no Vapiano, com várias pessoas do curso a decidirem ir.


Eu, o Mario e a "Death by chocolate"

Eu tinha ido para casa logo após o exame, por isso não estava ao corrente dos interessantes acontecimentos dos últimos dias e daquela tarde. Assim, quando cheguei ao jantar, não pude deixar de estranhar que toda a gente falasse do Kanwal.

O Kanwal é (era?) o indiano do nosso curso, uma pessoa extremamente estranha. Com 35 anos, comportava-se como uma criança, sem perceber coisas tão elementares como “na Suécia não se abraça toda a gente”, sem noção de espaço pessoal ou mesmo das mais elementares regras de educação, mas também uma criança no sentido que se encantava com as mais pequenas coisas. O seu péssimo inglês dificultava a comunicação e a sua prestação nos exames, já que chumbou nos poucos que fez. Era uma daquelas pessoas que arrepiavam por nunca se saber o que esperar dali e por alguns factos estranhos acerca dele, nomeadamente o facto de ter sido expulso do seu país e não poder regressar.

Lembro-me de vos ter contado a confusão que ele armou numa festa cá do prédio com o Neil. Dessa vez, ele estava a ser ele mesmo, a abraçar-se a toda a gente (até pessoas que não conhecia) e quando o Neil lhe disse para sair, ele respondeu que se quisesse, podia arranjar maneira de assassinar o Neil dentro de um mês (gosto deste pessoal que dá uma “deadline” – neste caso literal - , assim a pessoa tem tempo pra se despedir de família e amigos). Dessa vez acreditamos que ele não estava a falar a sério, apesar de ter tentado bater no Neil e de haver rumores de eventos numa estação de metro em que ele terá batido num tipo que disse mal da Índia.

Resumindo: na semana anterior ao jantar no Vapiano (há cerca de 2 semanas), o Kanwal começou a ligar a várias pessoas. À Dasha, à Iskra, Karin, Haythem, e os dois tipos do Bangladesh. Ligar insistentemente e compulsivamente. Para a Dasha, ligou umas 10 vezes em que a Dasha atendesse, e depois passou a ligar anonimamente até que a Dasha atendeu, e convidou-a para uma festa na casa dele, e quando a Dasha lhe disse que tinha que estudar, ele respondeu: “podes trazer os livros e ficar no meu quarto… podes ficar no meu quarto para sempre…” Lol. O grave é que para outras pessoas foi bem pior: para a Iskra ligou dezenas de vezes a dizer que a amava, apesar dos pedidos dela para ele parar de lhe ligar; com a Karin, foi agressivo e gritou com ela ao telefone; e ao que parece, ao Haythem terá dito que “Se isto continuava assim, ainda o forçavam a enveredar pela via criminal outra vez…” O que quer que isso queira dizer. Escusado será dizer que algumas pessoas andavam bastante nervosas com o assunto (eu não, só soube mais tarde), e decidiram que, naquela segunda-feira do jantar, era altura de fazer algo. E então foram à associação de estudantes, reuniram com eles, e em conjunto decidiram que o melhor era avisar os responsáveis pelo mestrado, porque, mesmo descontando as supostas ameaças, o que ele andava a fazer era no mínimo assédio. E então telefonaram ao nosso chefe (que por acaso é uma pessoa impecável, muito fixe mesmo) que disse que ia tratar do assunto.

Ao jantar, falava-se de tudo isto e havia pessoas, como o Mustafa, que arranjavam maneira de contar piadas sobre o assunto, algumas bem sádicas, lol.

No dia seguinte, ao chegarmos às aulas, o Kanwal não estava lá, mas sim 3 dos nossos administradores, que foram super atenciosos, disseram-nos que tínhamos feito a coisa certa ao contactá-los e ofereceram ajuda psicológica para alguém que precisasse, como a Karin, que andava nervosíssima. O Kanwal acabou por chegar, atrasado, e mal assomou à porta o Dan (o nosso “chefe”), obstruiu-lhe a passagem e levou-o lá fora para uma conversa. Dessa conversa resultou que o Kanwal aceitou ser internado na Unidade Psiquiátrica do hospital – parece que ele andava em consultas com o psiquiatra há muito tempo, e andava medicado, mas que agora que as irmãs, com quem vive, foram de férias para a Índia e ele ficou cá, deixou de tomar os medicamentos, ficando por isso um pouco alucinado. No final, acabou por ameaçar as únicas pessoas que ainda se davam com ele e alienar os poucos amigos que tinha. Como disse o Mario, as doenças mentais são tristes, e ele claramente tinha um problema qualquer.

Nunca mais vimos o Kanwal e não sabemos se ele vai voltar ao curso.

10 de dezembro de 2008

Blommor

Flores

1ºC em Estocolmo, 15ºC em Portimão

Depois de uma longa ausência, tenho a dizer em minha defesa que o trabalho nesta fase final foi mais que muito e o exame de Doenças Infecciosas foi mesmo mau… Por isso dêem-me um desconto :P

Os últimos dias também têm sido recheados de episódios interessantes, a alternar entre o trágico e o cómico. Não se preocupem, vou partilhá-los com vocês, claro, um por post.

Comecemos por falar do Neil, o americano do 1º andar. De facto, a história do Neil podia chamar-se “Neil e as suas 5 mulheres”, mas o nome “flores” também está apropriado, por razões que já irão perceber…

O Sr. Neil tem uma bolsa Fullbright, é giro e tem consciência disso. A Dasha tem um fraquinho por ele e farta-se de sofrer, apesar de não admitir, porque ele anda com umas e com outras.
Até que chegou um dia em que o Neil decidiu falar sobre a sua vida amorosa no Facebook (para quem não conhece, tipo Hi5 mas mais popular por cá e nos USA), sob a forma de um estudo de caso. OK, eu sei que também falo da minha vida aqui, mas as pessoas à minha volta não vão propriamente ler isto, porque, a) não têm o endereço do blog e b), não sabem português. Ao contrário das pessoas mencionadas no “estudo de caso” do Neil, que leram o que ele escreveu, a dizer coisas como “deixei-a porque não sabia falar de nada de interessante” ou “os homens foram programados para a poligamia” :D. Se quiserem ler o estudo de caso inteiro, continuem, senão, passem à frente:

Study case on relationships
I recently dated four girls:
Girl one was the closest thing to a one-night stand I have ever had. Met her at a bar and hung out with her the next day.
Girl two I met though a friend. She was very nice, but the conversations weren’t exciting and I got bored and I didn’t call her (it lasted 2 days)…now, I could have seen what was coming but that’s the way it always is…she got mad and I lied about breaking my phone. She told me it was my fault for misleading her.
Girl three lasted 2 weeks, I think…she was cool but the conversations sucked again and she always wanted to be entertained and didn’t pay once. So I didn’t call for a week. After, when we met up, all was well and IF she didn’t go and treat me like a boyfriend then it mighta worked…but it didn’t.
The fourth lives in another country and doesn’t like the fact im seeing anyone but her. So after this note were probably done.

Ok, normally I don’t talk about the girls I have seen. But I make an exception here to explain a point.

Expectations

If a relationship/dating/fling/marriage is going to work, you need to be on the same page.
The thing that is difficult is- when do you determine where each other is in the relationship. Too early is creepy and too late is dangerous.

I don’t want a serious girlfriend…ever. Maybe after im 30 (people always say ill change my mind- I wont.) Doesn’t mean im not open to it…I just don’t see it happening- I know me.

Here’s my conundrum. I’m a good guy (maybe after this note you wont agree, but I could care less.) and I like the cuddling/hand-holding/hugging/kissing in public/kissing everywhere all the time. Its real emotions…im not doing it to toy with the girl, it’s genuine. Problem is, it makes the girl treat ‘us’ as a relationship. This comes down to biology of course; you ladies are programmed to make love to one boy and were programmed for plurality.

Here is my light bulb.
Im a good lover (and modest, though it might not seem so here) but I understand why guys are ass holes now. If you meet a guy and he doesn’t call for a week and acts like a tough-guy it makes sense that that guy wont call, leave after sex, teat you like shit. Its easy to act this way b/c you girls expect it. As a sex this is ur biggest flaw. Nice guys should stop finishing last!

Problem for me is I don’t wana act like a dick. I wana call and I wana see you and I want to be able to act like lovers. This leads to trouble.

I guess this is my public declaration of my intentions. I want to date and I want to act like lovers because I have hope that one day I will never want to let you go. Until then lets have fun, be my lover, take it light and easy and we’ll let the serious stuff come with time.

FYI- The girls that I have seen the longest are the girls I take it slow with.

I’m open, not a prick.

I never love nobody fully, always one foot on the ground.
-Regina Spektor


Escusado será dizer que este post no Facebook fez ondas – e que ondas! Mas não nos apercebemos da extensão da peculiaridade deste personagem até ao dia em que os amigos da Dasha vieram visitá-la. O Neil estava na Califórnia e emprestou a chave à Dasha para os amigos dela ficarem no quarto dele. Foi então que a Dasha reparou num pormenor: na última vez que tinha estado no quarto do Neil, havia 4 orquídeas e agora havia 5. O que teria mudado desde então?
A Dasha começou a pensar, a pensar, e apercebeu-se de que desde que ela tinha visto as 4 orquídeas, e desde a nota no Facebook, o Neil tinha tido outra rapariga, a número 5. Será que….? Não pode, ou será que pode?
E foi nesse dia que conhecemos a Cécile, uma das primeiras 4 "flores", francesa, gira e a quem, aparentemente, o Neil disse que podia ficar no quarto dele, tal como aos amigos da Dasha. Felizmente essa situação resolveu-se, mas, depois de uma looonga conversa, ela lá confirmou que a história das orquídeas devia mesmo ser verdade. Ela foi a primeira, e nessa altura não havia nenhuma flor no quarto do Neil…

O que pensar? Bem, obviamente o tipo é parvo, coleccionar uma flor por rapariga é estúpido até porque, se continua a este ritmo, vai ter um jardim tropical no fim do ano… Para além disso, comprou-as de cores diferentes, e a Cécile diz que lhe há-de perguntar (se é que já não perguntou) de que cor é a dela e qual é o critério para escolher a cor…

O engraçado da história foi que a Cécile disse: “Então ele colecciona raparigas porque não gosta realmente delas e basicamente usa-as e joga-as fora, e ainda tem a lata de comprar uma flor a representar cada uma? Mas é que eu também o usei… Já estava mesmo de viagem para a França quando estive com ele e só me queria é divertir… Se calhar eu também devia comprar qualquer coisa, sei lá, por exemplo, um cacto!”


Moral da história: O Neil voltou de viagem e continua a procurar raparigas para se divertir, de qualquer nacionalidade. 2 dias depois, o status da Cécile no Facebook foi alterado para “A Cécile comprou um cacto.” LOL.

30 de novembro de 2008

Skratta

Rir

4ºC em Estocolmo, 14ºC em Portimão

Os últimos dias resultaram em várias fotos memoráveis que não posso deixar de partilhar.

A primeira aconteceu na nossa visita ao IKEA, quinta-feira. O Niklas começa a experimentar camas e, às tantas, o Mustafa começa a tirar-lhe fotos e há um momento em que o Espen se junta ao Niklas (na mesma cama) e disto resulta a seguinte foto:


Como dizia a Cris, o que destacar? O arzinho de porno gay? A mãozinha do Niklas na perna do Espen (ficou tudo parvo por ele entrar na brincadeira)? Ou a carinha do Espen? LOL.

Depois, como vos disse no último post, houve os anos da Clarissa e o filme que nós decidimos oferecer-lhe, com uma montagem das melhores fotos dela em Estocolmo. O filme ficou de rir, e para uma das partes nós as 3 (eu, Dasha e Shermaine) tivemos que tirar fotos vestidas de nerds. Ficam alguns exemplos:


Chegou então a festa da Clarissa, Christian e Stefania:


Em que eu e o Mustafa tirámos a seguinte foto (adoro a T-shirt dele!):



E houve direito a strip por parte do aniversariante (que não estava particularmente bêbado, mas é um italiano espontâneo como poucos):


Por fim, depois de muito hesitar, decidi publicar aqui temporariamente o vídeo que fizemos para a Clarissa, com o aviso de que não é para menores (já que andam menores a ler o meu blog), tem palavras feias lá no meio e não esquecer que é um vídeo feito entre amigas para visualização privada. A Clarissa adorou e desatou a chorar… Apesar de eu achar que em vocês o efeito deve ser mais o oposto…




28 de novembro de 2008

Nyheter

Novidades

6ºC em Estocolmo, 16ºC em Portimão

As novidades não são muitas, mas aqui fica um apanhado da semana (excepto segunda-feira):

Começaram as aulas de doenças infecciosas. Os três primeiros dias foram um bocado seca, os dois últimos foram excelentes. Resultado: não sei bem o que vos diga…
Uma das aulas foi dada provavelmente no auditório mais cool em que já estive, valeria a pena só pelo auditório, lol. A primeira aula de hoje era de avaliação do nosso prof., que acho que está a concorrer a professor associado, e no fim houve café e bolos à borla para toda a gente! Devia ser sempre assim…

Saíram as notas do exame de Neuro e tive A outra vez, foi o único :) Mas no geral as notas foram bem melhores do que no outro exame…

O Espen mudou-se para cá e logo na primeira noite conseguiu a proeza de se infiltrar no nosso andar e fazer aquilo que temíamos que ele fizesse: de repente voltamo-nos e lá está ele. Lol, que susto :D

O nosso forno (que estava avariado) voltou ontem! Finalmente voltamos a poder cozinhar decentemente…

Ontem fomos numa “visita de estudo” ao IKEA, foi super giro porque éramos imensos! Lá estivemos nas parvoíces do costume de experimentar as camas e tirar fotos parvas… No final da visita ao IKEA passámos ao Outlet de Estocolmo, que tem coisas muito giras e FINALMENTE lá consegui comprar o meu casaco de Inverno (e com desconto)! Não é perfeito, mas cheguei à conclusão de que o casaco de inverno que eu queria não existe...

A temperatura subiu :) e a neve derreteu :(

Chegaram os amigos da Dasha que, com eles, trouxeram álcool da Rússia. Vodka, Bacardi, Bailey’s e tequila. Ontem à noite sentaram-se à volta da mesa da cozinha e em menos de nada, eles os 4 (2 rapazes + 2 raparigas) mais a Dasha despacharam a garrafa de Bacardi (uma das grandes). LOL se a Shermaine sofre os efeitos do gene asiático, deve haver para lá um gene russo com o efeito oposto… :D

A festa do ano cá em Jägargatan acontece amanhã: festa de anos conjunta da Clarissa, Stefania, Mustafa e de um italiano giro do 1º andar chamado Christian. Porquê a festa do ano? Porque os convidados são mais de 100 e ainda não sei como é que lá vão caber… Porque, se bem que de certeza que alguns dos 100 não podem ir, os convidados estão autorizados a levar amigos, o que de certeza que vai aumentar exponencialmente o número de pessoas, até porque toda a gente parece ter amigos de visita este fim-de-semana – 4 da Dasha, 4 da Jacomijn, 3 da Clarissa, 4 da Giulia, 2 da Iskra. Porque até pessoas que geralmente não vão a festas (como a Dhifaf e a Ghazal) dizem que vão a esta. Porque… é a Clarissa e quando a Clarissa está metida ao barulho já se sabe que há diversão assegurada :D

Dentro de momentos tenho que ir juntar-me à Shermaine para continuarmos a preparar a nossa prenda para a Clarissa, um vídeo com uma montagem dos melhores momentos em Estocolmo (e comentários a gozar, como não podia deixar de ser :D). Pode ser que eu depois ponha aqui a versão final para vocês se rirem ;)

24 de novembro de 2008

Snöboll, snögubbe, snödinosaurie… :D

Bola de neve, boneco de neve, dinossauro de neve… :D

0ºC em Estocolmo, 16ºC em Portimão


O exame era longo mas acho que correu razoavelmente bem.

Depois de duas horas e meia de exame, nada melhor do que… Luta de bolas de neve!!! A ideia foi originalmente minha, da Shermaine e da Dasha (quando no outro dia fizemos uma luta de bolas de neve na cozinha), mas depois o Niklas criou um evento no Facebook e teve a ideia de ser rapazes contra raparigas. Do lado dos rapazes: Espen, Niklas, Mario e Mustafa. Raparigas: eu, Clarissa, Dasha, Shermaine, Iskra, Giulia (que foi ao chão, coitada), Karin e Marike. Até que não estava desequilibrado, visto que a nossa pontaria era péssima. Fotógrafo: Xinming.
Foi super divertido e a forma ideal de libertar a tensão do exame!


Equipa das raparigas...



Equipa dos rapazes


Seguiu-se almoço enquanto contemplávamos uma paisagem digna de postais de natal (não parava de nevar) e a seguir fui comprar os bilhetes para a sessão com os prémios Nobel da Medicina, a 12 de Dezembro.

Depois 3 horas de aula para morrer, sobre taxonomia de bactérias e vírus e, por fim, vir para casa fazer um relatório para entregar amanhã. Foi um dia mais que cansativo…

Ainda assim, quando o Albert me veio convidar para fazer um boneco de neve em frente ao prédio, não pude recusar, visto que nunca tinha feito nenhum na minha vida! A Shermaine levou uma cenoura e tudo, super entusiasmada porque, como eu, também era uma novata no assunto. A Jacomijn, Madelinde e Albert lá nos guiaram nas lides de fazer um boneco de neve e, no fim, foi muito giro e ficaram o máximo! Entretanto, chegou o Espen, que a partir de amanhã passa a ser nosso vizinho do 1º andar… Quanto aos bonecos de neve, fizemos um tradicional, com cenoura e cachecol, e um dinossauro de neve! (Na verdade, começou por ser um boneco de neve deficiente, mas a Jacomijn com alguma imaginação lá o transformou num T-rex júnior com muita pinta que até cauda tinha!)

I luv snow

Pessoal do prédio com o boneco de neve e o nosso T-rex júnior em primeiro plano :)

23 de novembro de 2008

Sjukdom

Doença

-2ºC em Estocolmo, 17ºC em Portimão

Patologias – estudo de caso

Cardiovascular
Ao ver / falar / tocar uma certa pessoa, o sistema nervoso simpático desvia o fluxo sanguíneo, por exemplo, para as bochechas, aumenta a pressão sanguínea, o ritmo cardíaco também é maior, com arritmias esporádicas, dando-nos aquela sensação de que o coração vai saltar do peito.
Diagnóstico: talvez não fosse amor, mas pelo menos uma empatia acentuada…

Neurologia
A pessoa em questão tem a capacidade de promover libertação de serotonina e dopamina no meu cérebro, afectando o meu sistema límbico e Nucleus accumbens. Por volta da segunda semana, começam a observar-se perturbações na neurotransmissão, falta de comunicação nas sinapses levando a degeneração axónica e apoptose. A rede neuronal começa a degradar-se, levando a alterações de humor e perturbações na capacidade comunicativa.
Diagnóstico: excesso de transmissão sináptica nos primeiros dias levou a uma sobrecarga do sistema, que começou a apresentar falhas.

Cancro
Devido a sinais exógenos por parte de células malignas na periferia, o programa de proliferação celular foi alterado, apresentado sinais de elevada instabilidade genómica e mutações que o fazem comportar-se de forma diferente do esperado. Antes que os danos sejam irreparáveis, decide-se proceder à apoptose e, felizmente, parece que foi a decisão certa: depois de um período de recobro, com sintomas indesejáveis, verificou-se remissão total das células cancerosas e restabelecimento da comunicação normal célula-célula.
Diagnóstico: é como quem diz, acabámos mas ficámos amigos.

Não se preocupem, está tudo bem… Se bem que, depois de um chorrilho de disparates destes, compreendo que ponham em causa o meu discernimento… Mas acho que este não estará tão afectado pelo fim da relação como pelo facto de estar fechada em casa a estudar há 3 dias :D

P.S. O próximo módulo é sobre doenças infecciosas... Será que vou ficar doente outra vez, infectada por um novo agente infeccioso? Era só o que faltava para o quadro clínico ficar completo...

22 de novembro de 2008

Vit


Branco

-2ºC em Estocolmo, 21ºC em Portimão

Acordar de manhã e abrir as persianas para ver o mundo pintado de branco é algo a que não estou habituada. Afinal de contas, não há neve na Praia da Rocha… Agora já parou de nevar, mas houve momentos em que a neve caía furiosa, em flocos grandes, desencorajando qualquer pensamento de sair à rua… Mas a Dasha tinha razão: mesmo em dias escuros e pequenos, a neve torna tudo mais brilhante, claro, mágico. Uma pessoa sempre fica com outra moral, mesmo tendo que ficar fechada em casa a estudar…








21 de novembro de 2008

Beställning

Encomenda

-2ºC em Estocolmo, 18ºC em Portimão

Lembro-me de inúmeras conversas de professores da escola que “exportaram” os filhos para outros países… O David está nos EUA, a Lara em Inglaterra, o Manel no Luxemburgo. Tudo parece fácil, “straight-forward”, quando toca aos outros, e nem paramos para pensar no que significa essa ausência para eles e para as famílias… Até que nos toca a nós e então apercebemo-nos do que realmente implica uma pessoa dizer “o meu filho está do outro lado do mundo”.

Para a família, é ver a partida no aeroporto e saber que não vão ver a filha(o) / irmã(o) durante meses, é a casa vazia, responder às perguntas das pessoas sobre nós todos os dias, “ela está bem, muito frio por lá…”, tentar manter os dias o mais ocupados possíveis porque quando se volta a casa esta está vazia, e só restam ecos de risos, memórias, conversas. É esperar, contar os minutos pelas conversas no Skype e dar graças pela invenção da Internet, que permite ver a pessoa querida do outro lado, em tempo real, em vez de se contar os segundos de uma chamada internacional, demasiado cara, ou tentar ler nas entrelinhas de uma carta escrita vários dias antes de chegar ao destino. E enquanto se fala no Skype, por momentos, a cara e a voz que conhecemos voltam a encher a sala e aliviam a saudade…

Para nós, os “emigrados”, é a descoberta: um país novo, uma cultura nova, uma língua para aprender, pessoas para conhecer, e trabalho, que afinal foi para isso que para cá viemos. Há dias em que tudo parece normal, já nos habituámos à rotina, a ter aulas todos os dias e exames de duas em duas semanas, a ver o pôr-do-sol às 3 da tarde, a vestir quilos de roupa antes de sair à rua, a chamar os nossos amigos por nomes como Shermaine, Dashinka, Mustafa ou Khairun, em vez dos antigamente habituais João, Tânia, Cláudia, Cristiana… Falar em inglês o dia inteiro já não é estranho, e algumas palavras começam a sair mais facilmente nessa língua do que em português. E a verdade é que andamos sempre tão ocupados que a maior parte das vezes nem pensamos “Ah é verdade, estou na Suécia!”

Mas há dias… Há dias em que voltamos do supermercado, de sacos na mão, apressados de volta a casa, e em que, num momento aleatório e sem nada de especialmente diferente do momento anterior ou do momento seguinte, paramos no meio da estrada, olhamos em redor, para a noite escura que nos envolve às 4 da tarde, para os prédios de tijolo vermelho, para um casal que passa por nós em conversas que não conseguimos decifrar, cabelos louros, por vezes quase brancos de tão claros, olhos azuis e pele clara, o tempo é gélido e as roupas grossas, e quando chegar a casa sei que não vou ter o acolhimento da família nem um caldo verde quentinho nem um arroz de pato acabado de sair do forno… E é então que olho em volta e penso: “é verdade, estou na Suécia!” e a saudade aperta…

É por isso que sabe tão bem receber uma encomenda. Um pedaço de Portugal transportado para a Suécia, uma ligação entre os dois mundos que nos fazer recordar: é dali que eu venho. A casa que conheci ainda existe, com as minhas pessoas, as minhas coisas, os meus sabores. E saber que posso lá voltar um dia…


"Postal dos correios (João Gil)

Querida mãe, querido pai. Então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo 'expresso' que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça pra merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidade na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de 'candeio'?

Já não tenho mais assunto pra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal"

19 de novembro de 2008

Poker, piano, personer

Poker, piano, pessoas

1ºC em Estocolmo, 19ºC em Portimão

Hoje foi um dia bom. Normal, mas ainda assim…

Mas comecemos por ontem, dia da primeira sessão do torneio de poker do nosso corredor. Foi também o dia de anos de uma holandesa, a Lisa, que fez bolo para nós todos e juntámo-nos, vários, à volta da mesa da cozinha, a jogar poker e a comer bolo… Foi óptimo para relaxar destas semanas de aulas, que têm sido intensivas e muito cansativas. Eu não sabia jogar, mas o Martijn encarregou-se de explicar as regras para toda a gente e agora já estou pró :P Não, não ganhei, perdi as fichas quase todas, mas não jogámos a dinheiro, logo não faz mal :)

Hoje… foi mais um dia de aulas, em mais um auditório em que nunca tínhamos estado antes. Depois de uma hora a ouvir falar em oncogenes, por um professor não particularmente interessante, saio da sala para um intervalo de 15 minutos e eis que dou de caras com… Um piano! Há vários espalhados pelo Karolinska, nos sítios mais inesperados, desde o bar à associação de estudantes a um dos corredores do hospital a, como hoje, um hall de entrada da unidade de investigação sobre cancro. Lá andei de um lado para o outro, a rondar o piano, sem saber se devia sentar-me a tocar ou não, com uma vontade imensa de tocar mas por outro lado inibida pelas pessoas do meu curso que lá estavam… Por fim, lá me sentei, abri-o, senti as teclas, os pedais, olhei em volta e vi que eram apenas 3 pessoas a assistir, logo, mal menor, e lá comecei… Com a Für Elise.
Não sei por que é que de cada vez que me sento ao piano tenho tendência para tocar essa música primeiro, talvez porque já a saiba de cor e a hipótese de me enganar seja mínima, mesmo eu não tocando há meses… E a partir do momento em que se começa a tocar, pronto, já sabem, fico noutro mundo :D Quando acabei tive direito a salva de palmas e lá me lancei a tocar as primeiras notas da “Claire de lune” e, por fim, a sonata ao luar, a pedido da Dhifaf. No final, até o professor ficou lá a ouvir-me e felicitou-me por “tocar muito bem”. Recebi imensos elogios, o que sabe sempre bem, desde a Su ao Espen (em português, claro), o Mustafa, o Niklas, o Haythem, que me pôs um papelinho no meu caderno, já durante a aula, a dizer “U rock!”. Lol. Soube-me tão bem… Quem me dera poder tocar mais vezes. Mas, de preferência, sem tanta gente a ver…


Pessoas… Nesta altura do curso, já passou a fase do encantamento, começam a surgir as tricas e discussões e chatices, e é engraçado ver como, por exemplo, muitas pessoas têm uma opinião diferente da Marike do que eu pensava. A Marike é meio francesa, meio sueca. Fala alto e gesticula, tem opinião sobre tudo (mas absolutamente tudo!) e esta opinião, 90% das vezes, é negativa.
A minha primeira impressão da Marike foi que ela era um bocado parva, depois comecei a dar-me bem com ela e a achar piada àquela maneira de ser, e, por fim, comecei a cansar-me. Pode ser que o meu cansaço, no meu caso particular, tenha sido despoletado pelo facto de ela ter metido bastante o bedelho na minha relação com o Niklas, mas toda a gente que a ouve, acha graça nas primeiras vezes, as segundas abana a cabeça e ignora, às terceiras começa a exasperar-se. Comecei a notar isso em conversas com a Shermaine, a Dasha e a Clarissa, que no início, tal como eu, também se davam com ela, e que eu achava que tinham dela a melhor ideia… Afinal não. Já estão um bocado fartas daquela mania de se achar, de pensar que a sua opinião é a lei, que a sua voz é a do grupo e que sempre que fala, fala por todos e que todos têm absolutamente que concordar com ela. É difícil de explicar a quem não a conhece as entoações afectadas, os trejeitos de cabeça sempre que fala, os gestos com os braços que parece que vai decapitar alguém, e, especialmente, a dureza com que responde a quem quer que se atreva a questionar sua excelência (Queen B., chama-lhe a Shermaine, baseada numa personagem da série “Gossip Girl”).
Hoje foi o Mario, que deve ser uma das pessoas mais pacíficas que conheço, e que supostamente era dos que se davam melhor com ela (se descontarmos o Niklas e o Mustafa, que lhe dão o desconto), acabou o dia a dizer, e passo a citar: “Jurei a mim mesmo que se ela fizesse mais uma observação lhe cortava a carótida.” LOL. Enfim, violência à parte, não pode deixar de irritar uma pessoa que toma qualquer pequena observação como um insulto, que trata os outros como “you people”, que é a primeira a apontar como todos os outros fazem imensos erros, como tudo está mal organizado, que o curso é super básico para o background dela em Biomedicina – mas depois vai-se a ver e tirou D, mas, como ela se encarregou de apontar a mim e à Su (as duas pessoas que tiraram A), os As não querem dizer nada e podia tirar-se um A naquele exame sem se saber nada, até porque os exames nunca avaliam o que realmente sabemos. Enfim, dor de cotovelo é danada…


E por que é que digo, no fim disto tudo, que foi um bom dia? Porque toquei piano :D E porque, no fim do dia, ao sentar-me no autocarro para vir para casa, adormeci e acordei à porta de casa, noite cerrada, com neve a cair, aos rodopios debaixo da luz amarelada dos candeeiros da rua, a pousar no espelho de água em frente ao hospital… Claire de lune, claire de neige…

16 de novembro de 2008

Snö!

Neve!

0ºC em Estocolmo, 19ºC em Portimão

Estava eu a almoçar, muito descansada, quando a Shermaine olha lá para fora e quase que manda tudo ao chão, salta da cadeira, aponta para a janela e exclama: “Está a nevar!!!”

Fica tudo numa excitação, telefona-se à família, tiram-se fotos e filma-se, de repente parecíamos um bando de putos. A neve não chegou para acumular, derretia mal tocava no chão, afinal de contas foi a primeira neve do ano… Mas foi bonito de se ver :D




A neve vista da minha janela



O meu guarda-chuva todo salpicado de branco :)

15 de novembro de 2008

Vännen

Amigos

5ºC em Estocolmo, 17ºC em Portimão


Amigos são aqueles que estão lá para nós nos bons e nos maus momentos… Que mudam o nick quando nos queixamos da falta de sol para montes de símbolos de sóis, só para iluminar os nossos dias… Que sentem a nossa falta quando estamos a 4000 km de distância… Que oferecem o ombro, conselhos ou “comfort food” quando estamos “down” e fazem tudo para nos sentirmos melhor…

Ontem houve uma festa cá no prédio que juntou muitos dos meus novos amigos, do corredor mas também do curso. Acabei por conhecer um senhor de Moçambique que mora no 1º andar e está cá a fazer doutoramento, um italiano muito giro, também do 1º piso, o pessoal do curso ficou finalmente a saber como são as festas do nosso “gang”, os meus amigos portugueses também apareceram e, fazendo as contas, devíamos ser umas 40 a 50 pessoas que por aquela festa passaram, entre as 9 da noite e 3 da manhã. Como contribuição para as bebidas, fiz sangria, que estava uma maravilha – desapareceu em menos de nada… Enquanto a fazia, na nossa cozinha, o chinês e a Edith (uma senhora da Tanzânia) olhavam muito espantados – nunca tinham visto sangria na vida! A Edith agora chama-lhe “Fruit wine”, hehe… E diz que vai tentar repetir a receita quando voltar para África, já daqui a 2 semanas…

Pesando os prós e os contras, a festa foi boa. Houve uma cena menos agradável com o Kanwal do meu curso e acho que o resto das pessoas do curso também não acharam que aquele fosse o seu tipo de festa, mas ao menos agora já não podem dizer que nunca os convidamos para nada. Quanto a mim, fiz a minha parte: conversei, bebi, dancei muito, tirei fotos e, acima de tudo, libertei a tensão e as energias negativas acumuladas durante a semana, que era o meu principal objectivo com esta festa… E, não me canso de dizer, é sempre bom ter amigos que fazem tudo para que a gente se divirta, que se aproximam de nós durante a festa a perguntar se está tudo bem e se precisamos de alguma coisa e que nos dão um abraço bem apertado antes de irmos dormir… Assim, vale a pena :)

11 de novembro de 2008

Utvärdering

Avaliação

5ºC em Estocolmo, 17ºC em Portimão

Há por aí pessoas desejosas de saber se, tanto no Karolinska como em Portugal, continuo a ser a mesma 19,5… As mesmas pessoas também andam a reclamar do tamanho dos meus posts…

Pois estejam descansados que este é um post bem curtinho, só para elucidar que, ao contrário do que diz o PVB (segundo quem as pessoas de cabelos encaracolados têm um gene para a estupidez), esta miúda de cabelo bem encaracolado teve A no exame de Cardiovascular, num panorama geral nada animador (em 25, 2 A, nenhum B, 6 C, 6 D, 6 E e 5 F – dos quais F é negativa e os restantes positiva, mas ainda assim…).


Ah, e o exame de Neuro também correu bem :D

Pronto, agora já sabem :P Happy?


8 de novembro de 2008

Idag...

Hoje…

8ºC em Estocolmo, 19ºC em Portimão

… está frio, escuro e a chover, e a única coisa boa é que assim não apetece mesmo sair de casa e há mais motivos para ficar no quarto com uma chávena de chá preto e dezenas de slides sobre Alzheimer, Parkinson e outras que tais…

Para que vocês, pessoas sortudas que podem estar em Portugal com um sol fantástico e 19 graus ou lá o que é, possam ter uma ideia do que é viver cá no fresquinho e escurinho, hoje resolvi tirar fotos de hora a hora para vocês verem a maravilha. Aqui vai, o dia de hoje, visto da janela do corredor:

8h15

9h15

10h15

11h15

12h15

14h15

15h15


16h15


Digam a verdade, estão mesmo cheios de inveja, não estão???

Neurologi eller hjärndöd

Neurologia ou morte cerebral

7ºC em Estocolmo, 11ºC em Portimão


Neurónio de peluche do site www.giantmicrobes.com :D

Desde a semana passada que entrámos, intensivamente, no módulo de Neurologia. Se eu tinha achado o de cardiovascular intensivo, então não estava bem a ver o que a neurologia me reservava…

Estão a ver a matéria de Fisiologia do último semestre? Isso aprendemos nós em 2 horas… Lol. Seguiram-se inúmeras aulas sobre os temas mais diversos, desde anatomia do sistema nervoso (macro e micro), desenvolvimento embrionário, sinalização neuronal, células gliais, aprendizagem e memória, várias aulas sobre Alzheimer, várias aulas sobre Parkinson, Esclerose múltipla, toxicodependência, doenças psiquiátricas…Sim, isto tudo em duas semanas. Ou seja, neste momento vemo-nos confrontados com um exame dentro de dois dias e imensa coisa para estudar. Claro que o facto de estes temas serem super interessantes facilitam o estudo mas, ainda assim…

Gostei particularmente das aulas sobre aprendizagem e memória, em que nos foram mostrados filmes de experiências em ratinhos realizadas em labirintos, das aulas sobre Alzheimer, da aula relacionada com a sinalização celular nos neurónios dopaminérgicos em Parkinson. Complexo mas apaixonante…

O pior deste módulo foi mesmo a falta de tempo. Aulas das 9 às 4 em imensos dias, chegar a casa às 5, já de noite, ter que fazer jantar e ainda estudar para tentar acompanhar minimamente (e falhar miseravelmente) a quantidade megalómana de matéria… Para além disso, como na semana passada ainda houve bastante rambóia (sessões de filmes com o Niklas, almoço com o pessoal no chinês, festa de Halloween) esta semana não houve mesmo margem de manobra, foi hibernar a olhar para montanhas de slides sobre doenças neurodegenerativas e sentir, a dada altura, os nossos próprios neurónios a degenerar, dendrite por dendrite, axónio por axónio… :P

4 de novembro de 2008

Stora microorganismer

Micróbios gigantes

4ºC em Estocolmo, 13ºC em Portimão

O nome do post é estranho, eu sei... Há uns tempos, quando fui comer lasanha a casa do Mario, ele mostrou-me o seu HIV de peluche e falou-me dos seus planos de comprar um neurónio de peluche para oferecer à namorada, que está num mestrado em neurociências... Sim, leram bem: HIV de peluche e neurónio de peluche. Cromice a mais? Provavelmente... :D

A verdade é que o assunto veio à baila outra vez hoje, em que descobrimos que os ditos micróbios de peluche estão à venda na livraria da nossa universidade - aparentemente, a Marike comprou um adipócito de peluche, o Mustafa uma MRSA (Staphylococcus aureus multi-resistente) e o meu amor comprou um leucócito de peluche... Tão fofos! Lol...

Se não fazem ideia do que raio é que estou a falar, vão ao website dos fabricantes:
http://www.giantmicrobes.com
E convertam-se à cromice... Afinal, a ciência pode ser fofinha!
Os meus favoritos: rhinovirus e bacteriófago T4 :Rhinovirus

Bacteriófago T4