Fila (ou bicha, como preferirem)
8ºC em Estocolmo, 21ºC em Portimão
O dia começou cedo, a tratar de burocracias. Primeiro o Tax Office (para receber um Swedish Personal Number) e depois o Migration Board para me registar como residente na Suécia. Foi giro registar a diferença de eficiência em ambos os sítios…
Tax Office: estamos de facto num país civilizado. Sofás para o pessoal se sentar, balcões com canetinhas e cadeiras para se preencher os papéis, atendimento rápido e eficiente, quase que não se espera… Fiquei muito bem impressionada.
Depois passa-se de Södermalm, uma das melhores zonas de Estocolmo, onde fica o Tax Office, para Solna, nos subúrbios, onde fica o Migration Board. Dezenas e dezenas de pessoas (momentos antes de ser atendida, contei cerca de 100). Cadeiras de plástico, mas confortáveis, não digo que não, já não há canetas à disposição nos balcões, a espera é interminável. Olha-se em volta e vemos que de certa forma não estamos na Suécia, pois é raro ver-se uma cabeça loura. Negros, morenos, cabelos escuros, homens sozinhos, com ar cansado, pobre ou simplesmente normais, alguns acompanhando as mulheres, controlando a situação, mulheres essas tapadas da cabeça aos pés, com um rebanho de crianças à volta, crianças de todas as idades que brincam umas com as outras, amizades que se fazem, o choro de um bebé recém-nascido, uma mulher iraquiana com uma t-shirt decotada a dizer “Come to mummy” (?!), um húngaro quieto, de óculos, sentado a um canto, barulho, um pequeno caos bem diferente do ambiente calmo e frio do Tax Office, uma confusão que não chateia tanto como reconforta, porque sentimo-nos mais próximos daquelas pessoas de cabelos negros do que das frias louras dos balcões de atendimento que nos despacham como quem despacha uma encomenda.
Ironicamente, o balcão da União Europeia era o com menos pessoas a atender (só 1 homem), logo, demorei mais de uma hora só à espera dos 5 números que estavam à minha frente…
Lá fui para o campus, pagar a renda aos serviços de alojamento; lá fui almoçar a uma cafetaria cheia de gente onde tive que esperar mais de 15 minutos numa fila só para colocar o meu tupperware no microondas; parece-me que passei a manhã numa única fila interminável…
A tarde de trabalho de grupo, por uma vez, rendeu; tomei as rédeas à situação para evitar mais discussões sem fim à vista e o trabalho avançou bem, a tarde toda, e lá conseguimos acabar o nosso poster que, devo dizer, ficou bastante bem, ao fim de 5 horas de trabalho árduo! A meio da tarde, a minha mãe telefona-me e foi bastante engraçado, pois de repente apercebo-me de que estava tudo a ouvir a minha conversa – uns deviam achar simplesmente graça a ouvir falar português, a Marike perguntava ao Mario se percebia alguma coisa por causa da sua namorada brasileira, ao que ele respondia que não, o Espen, que agora está a morar no chão do quarto do Mario e por isso anda sempre com ele, aguçava o ouvido a ver se percebi. Quando desliguei, perguntei-lhe: “So, did you understand anything?” Ao que ele respondeu (em português, claro!): “Gosto do som da sua voz…” Sem comentários!
Regresso a casa, fazer jantar. Sopinha de alho francês, ovos mexidos com salsichas acompanhados por uma saladinha de tomate e alface. Entretanto o Pedro (espanhol) e o Albert juntam-se a mim; a conversa começa, como foi o teu dia para cá e para lá. Às tantas o Albert e o Pedro começam a falar entre eles em espanhol e eu divertidíssima, porque não sabia que o Albert falava espanhol (e bem! Resultado de apenas um mês passado em Espanha) e porque, obviamente, percebia tudinho. Às tantas lá se aperceberam do meu sorrisinho e perguntaram-me, em espanhol, se eu percebia, e eu que si, por supuesto! Descobri que o Albert vai ao ginásio todos os dias e que vai juntar-se a umas aulas de salsa – uma coincidência, visto que eu também vou começar a ter aulas de salsa (mas as minhas de graça) esta quinta-feira!
Sai o Pedro, entra a Jacomyn, a conversa continua. O Albert vai buscar os posters que esteve a imprimir sobre a festa do corredor, discutem-se detalhes, acabo de comer os ovos e passo para a fruta, fala-se de cinema e do trabalho no laboratório. A Jacomyn convida-me e ao Albert para umas panquecas com gelado e, obviamente, não recusamos… Ouço falar de mais duas festas, uma na quarta, outra na sexta e mais uma vez a agenda social da semana fica preenchida. Chegam mais dois holandeses, Madeleine e Martin, a primeira começa a fazer o jantar, o outro junta-se à conversa… Entretanto o Albert e o Martin decidem armar-se em rapazes de entregas e fazer a distribuição dos posters pelo corredor e caixas do correio, enquanto nós ficamos na cozinha. A Jacomyn é acometida de uma fúria arrumadeira e decide reorganizar os frigoríficos (hoje houve uma situação chata, com o Pedro e o Paul a escolherem a mesma prateleira e o primeiro acabou por deitar fora coisas do segundo, o que deu azo a umas demonstrações de testosterona na cozinha); imprimem-se novas folhas para organizar as prateleiras por quartos, retiram-se frascos e frascos de coisas fora do prazo deixadas por hóspedes prévios há demasiado tempo atrás, retiram-se gavetas e prateleiras que são limpas sem piedade; acabei por me juntar à vaga de arrumação, enquanto os dois rapazes basicamente gozavam com a nossa determinação.
Limpeza terminada, cada um para seu quarto, excepto eu, que fui apanhar a roupa à lavandaria, vim ao Skype falar com amigos e família, saber que o meu maninho que começou hoje a vida de universitário teve um dia do pior:( ; dobrei roupa, falei com mais uns quantos, e este speed todo à 1 da matina deve-se somente ao café que bebi a meio da tarde “to get the work going”. Amanhã vai ser lindo para acordar…
16 de setembro de 2008
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