6 de outubro de 2008

Nobel presskonferens

Conferência de imprensa dos prémios Nobel

12ºC em Estocolmo, 24ºC em Portimão

Hoje foi dia N na universidade. A excitação era grande e até na primeira aula da manhã, de apresentação da nova cadeira (o “cadeirão” do curso) a professora não se conteve e lá começou a debitar como estavam todos muito ansiosos porque o Presidente do Comité Nobel era do laboratório dela e não se descosia sobre os premiados…

As aulas da manhã foram, assim, passadas a saltitar mentalmente entre um pé e o outro, à espera que nos dispensassem para podermos correr para o outro lado do campus e tentarmos infiltrar-nos na conferência que iria anunciar o Nobel da Medicina 2008, para podermos saber em primeiríssima mão, primeiro que todos os outros que não estivessem naquele auditório, primeiro que o resto do mundo. As professoras, sensíveis ao nosso entusiasmo, encurtaram o nosso 1º intervalo e o próprio tempo da aula e, assim, depois de duas horas a ouvir falar do programa da cadeira, datas de exames e a importância da “Translational Medicine”, lá nos deixaram sair. E lá fomos em excursão, uns 20, para nos infiltrarmos na conferência. Não foi tão difícil como esperávamos, visto que chegámos ainda uns 20 minutos antes da hora e havia muito espaço livre de pé, junto à parede – obviamente que os lugares sentados estavam todos reservados a jornalistas e a inúmeras câmaras de televisão. Sentia-se o suspense, efervescente, no ar, nas conversas sussurradas entre uns e outros, que cessaram mal a conferência começou, às 11h30 em ponto, tal como previsto (pontualidade sueca!).

Não houve cá rodeios nem conversa inútil: direitos ao ponto, depois de uns breves agradecimentos. “O prémio Nobel da Medicina 2008 é, este ano, dividido entre Harald zur Hausen, pela descoberta da associação do HPV com o cancro cervical, e por Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, pela descoberta do HIV.” Os pelinhos até se arrepiam, pronto, já está, mais um prémio Nobel anunciado ao mundo mas, em primeiro lugar, a nós, naquela sala. Vê-se um frenesim de câmaras, flashes, telemóveis, o pessoal manda SMSs a contar as novidades a toda a gente que possa estar interessada em saber em primeira mão.

Seguiu-se uma apresentação sobre os laureados, o seu percurso, investigação e a descoberta em si, bem como a relevância da descoberta para o mundo. A parte do HIV foi especialmente interessante para alguém que estudou o assunto com alguma profundidade…

Por último, uma sessão de perguntas e respostas, que abriu com uma pergunta a abrir o caminho à polémica. A verdade é que houve 2 grupos independentes, no mesmo ano, a identificar o vírus: um nos EUA e um em França, mas só o francês foi premiado. O presidente lá respondeu que de facto, era consensual que a primeira descoberta tinha sido feita no Instituto Pasteur, mas não foi muito convincente, visto que houve outras pessoas com a mesma dúvida, apesar de ninguém ter colocado a pergunta uma segunda vez. O conceito de “quem identificou primeiro” torna-se difícil de justificar quando toda a gente sabe que os dois artigos de identificação do vírus foram publicados no mesmo número da revista “Science”, em páginas consecutivas… As outras questões prenderam-se com a reacção dos premiados (obviamente extasiados), o porquê agora, já que o HIV está em cima da mesa para a atribuição há anos, se já há promessas de vacinas para o HIV (infelizmente não) e a mesma jornalista da primeira pergunta, claramente a tentar despoletar controvérsia, a perguntar se o facto de o prémio para o HPV surgir agora, pouco depois de ter sido lançada a vacina (bem cara por sinal), não teria implicações comerciais, ou seja, fazer aumentar as vendas da vacina… E lá tiveram que relembrar a senhora que a descoberta de que o vírus causava cancro já tinha salvo milhares de vidas e que o prémio não era para a descoberta da vacina… embora eu compreenda onde ela queria chegar.

All in all, foi uma experiência inesquecível. Levámos a hora de almoço a discutir as implicações do prémio e a inventar estratégias para nos plantarmos à porta do auditório das Nobel lectures em Dezembro, às 6 da manhã, senão não se arranja lugar.

A aula da tarde, sobre SNPs e análise de genomas, foi interessante, sem dúvida, mas a nossa cabeça andava a voar bem alto… (O Mario, por exemplo, está radiante porque o tipo do HPV é de Heidelberg, a universidade dele!) Até uma pessoa fica com mais motivação para estudar :D


1 comentário:

Cristiana disse...

E depois eu tenho uma amiga tão querida que me manda sms a relatar o sucedido quando eu estou a sair do dentista, com a boca dormente! A pessoa sente logo que apesar de ter largado um bom dinheiro no dentista ganhou o dia. :P