25 de outubro de 2008

Studera

Estudar

8ºC em Estocolmo, 19ºC em Portimão

E depois do amor… O estudo! Exame de cardiovascular na segunda-feira não é pêra-doce… De forma que tanto eu como o meu sueco como toda a gente com o mínimo de responsabilidade está com a cabeça mergulhada em livros e apontamentos e slides…

Aproveito para fazer uma súmula (epa já pareço o prof. e Bio-informática) das últimas semanas, já que muita gente me tem perguntado: sim, amor e festas e tal, tudo bem, mas e o curso? Como está a ser? E de facto, esse aspecto, que está a ser tão positivo como o resto, tem sido deixado um pouco de lado, por isso passo a comentar.

Do primeiro mês já falei, foi basicamente darem-nos as ferramentas para podermos enfrentar tarefas tão distintas como escrita de artigos, elaboração de um poster para uma conferência ou apresentação de um seminário. Mas este mês as aulas “a sério” começaram…

Temos aulas no hospital, num auditório em que as cadeiras são (demasiado) confortáveis e não ajudam à concentração… Daí que me sente sempre na primeira fila, para não ter distracções, se bem que geralmente o tema é suficientemente interessante para a mente não divagar (muito, divaga sempre um bocadinho para o parceiro do lado :P). Os professores dão-nos os slides no início da aula, impressos por eles, às vezes mesmo a cores, para que possamos tirar apontamentos à medida que eles vão falando - de momento a pilha de folhas de slides já passa a espessura de uma lista telefónica, sem exagerar...

Primeira semana sobre técnicas moleculares, já as mencionei… É interessante ver como as coisas podem ser abordadas de formas tão distintas em universidades diferentes. Claro que eu já tinha ouvido falar de microarrays, de transgénicos, de RT-PCR, Western blot e afins, mas aqui é tudo dado do ponto de vista das ciências biomédicas, não se focando tanto na parte mais técnica porque, obviamente, não é numa aula teórica que vamos aprender o método, isso logo acontecerá se formos para um laboratório em que tivermos que o aplicar. Assim, as apresentações focam-se em questões como: em que é que esta técnica me pode ajudar a investigar a doença X? quais são as várias abordagens alternativas que posso ter para endereçar um mesmo problema? Quais são as vantagens e desvantagens de uma e outra técnica e quais as situações em que será preferível usar uma ou outra? Tudo isto acompanhado de exemplos CONCRETOS, visto que as pessoas que nos falaram de cada uma das técnicas estão de facto a aplicá-la na sua investigação e podem realçar-nos aspectos mais específicos que só alguém por dentro do assunto poderia conhecer… E essa é a vantagem de termos um professor por aula, sempre pessoas diferentes, pois sabemos que são de facto as pessoas mais indicadas para nos falarem sobre aquele tema em especial.

Uma semana depois começa o módulo cardiovascular, ou seja, enquanto na primeira semana os nossos médicos andaram à nora e nós na maior, porque obviamente já sabemos as bases das várias técnicas apresentadas e foi só um acrescentar de conhecimento, nestas últimas semanas deu-se o oposto: os médicos na maior, pois o que demos já eles sabem de cor e salteado (a maioria mas não tudo, porque demos alguns aspectos mais relacionados com investigação que o médico “normal” desconhece) e nós… nada. Para terem uma ideia, na primeira aula destas duas semanas demos tudo o que falámos em fisiologia sobre o sistema cardiovascular ao longo de um semestre inteiro, lol.
Mas é diferente… No segundo dia fomos visitar as instalações onde o pessoal de fisiologia faz investigação, para vermos os vários aparelhos de que tínhamos falado no primeiro dia e que permitem medir vários factores relacionados com o funcionamento do sistema cardiovascular. Vimos corações de rato, artérias, uma montagem que permite estudar um coração fora do corpo ainda a bater, adicionámos substâncias várias a artérias previamente extraídas para ver se elas contraíam ou relaxavam, vimos os aparelhos usados para fazer ECG e ecos em ratinhos, e até nos cruzámos com alguns dos ditos cujos em gaiolas. No fim, o professor (que era o típico cientista “maluco”, super entusiasmado com o seu próprio trabalho) ainda nos mostrou o seu próprio projecto mais acarinhado, investigação sobre o sistema cardiovascular em peixe-zebra (zebrafish), estivemos a ver as larvas do dito peixe, que não têm mais de 3 mm de comprimento, e surpreendemo-nos quando percebemos que eles são capazes de extrair um músculo daquela coisinha minúscula para estudar a sua contractibilidade. No final, dado o nosso entusiasmo, o professor levou-nos ao laboratório, anestesiou umas quantas larvas e estivemos a vê-las ao microscópio – foi giríssimo, porque elas são completamente transparentes e dá para ver o coração a bater…

OK, eu sei, conversa de nerd, toda entusiasmada com ratos e larvas. Eu sou assim, o que é que querem…

O resto das aulas debruçaram-se sobre assuntos vários, como células endoteliais, sinalização celular em processos de contracção de células cardíacas, controlo neurohumoral da circulação, função vascular em processos inflamatórios, “pericytes” (não sei como traduzir), tecido adiposo e resistência à insulina, inflamação na aterosclerose, enfarte do miocárdio, AVCs. Estes são apenas alguns exemplos… O facto é que as aulas se tornam extremamente interessantes pelo facto de os professores apresentarem sempre dados experimentais a ilustrar cada parte, falam do que está a ser feito na “crista da onda” naquela área e como podemos aplicar várias técnicas para tirar conclusões sobre cada doença – como diz a nossa coordenadora desta cadeira, o objectivo é nós sairmos deste módulo a sermos capazes de ler e compreender qualquer artigo em investigação cardiovascular e, de facto, acho que nos dá uma excelente preparação para tal. Eu, pelo menos, estou a adorar esta parte e gostava de fazer um dos meus projectos nesta área…

E pronto, já dei a seca para aqueles a quem o meu curso não interessa nada, mas espero ter esclarecido um pouco aqueles que me perguntam frequentemente “como é que isto é”.

Espero também que agora percebam a razão de eu estar a hibernar, sem sair do meu quarto 24 horas por dia, até ao exame de 2ª feira… Intervalos, só para comer, WC, dormir, falar com o meu amor na net e com a minha mãe no Skype, arrumar o quarto, passar roupa a ferro – ou seja, regime militar! Mas como o estudo está a correr bem, pode ser que hoje à noite vá a uma festa que há no 5º andar… Se for, amanhã mostro fotos ;) E agora dêem-me licença, que tenho que voltar aos processos inflamatórios na aterosclerose…

4 comentários:

Cristiana disse...

O pessoal já pensava que tinhas ido para aí para a boa vida! :D

Ainda bem que o curso está a corresponder (superar) as expectativas... mas também já era de esperar!

Tchii, os profs darem os slides no inicio das aulas...também quero!

Força aí nos assuntos do coração :P

vErA disse...

oh jo!! só uma pergunta (pode parecer estúpida mas por acaso fiquei interessada): pq q raio são os peixes zebra usados como modelo?

beijokas e bom estudo

Janebloom227 disse...

Não tenho a certeza da resposta, mas pelo que percebi, é porque são vertebrados, logo próximos filogeneticamente do sistema cardiovascular humano, fáceis de manipular, crescem rapidamente (a larva passa a adulto numa questão de dias) e têm o genoma completamente sequenciado... E acho que o facto de serem transparentes também ajuda a visualizar determinados processos (pode ver-se o coração bater sem serem necessários corantes de qualquer tipo!).
Espero ter esclarecido minimamente :P

vErA disse...

muchas gracias! =)