18 de outubro de 2008

Indisk middag

Jantar indiano

6ºC em Estocolmo, 17ºC em Portimão


Quarta-feira desta semana. É tarde, 7 e tal, e ainda eu vou no comboio a caminho de casa… Quando recebo mensagem do Pedro a perguntar-me: “já cá estou. É no primeiro andar?”
Não faço ideia do que se passa porque estive fora o dia todo, outros compromissos… :)

Depois de uma intensa troca de mensagens, lá consigo perceber o que se passa: a mãe do Neil (o americano do 1º andar), que esteve cá a visitá-lo esta semana e ia voltar para a Califórnia, decidiu cozinhar um jantar tip
icamente indiano para todos os amigos do Neil e fomos todos convidados… Não podia vir mais a calhar, já que eu estava cansadíssima e não me apetecia nada pensar que, chegando a casa às 8 da noite, ainda ia ter que cozinhar…

Quando cheguei ao primeiro andar já estava tudo sentado à mesa, éramos uns 14! Sentei-me perto do Pedro, Shermaine, Dasha e Neil, que se encarregaram de me servir de um pouco de tudo. Estava tudo óptimo, a mãe dele cozinha mesmo muito bem, apesar de a comida ser super picante, como convém na cozinha indiana… Mas nada que não se resolva com uns quantos copos de água a acompanhar.


Foi giro ver as competições de “quem aguenta mais picante que os outros”, particularmente entre a Shermaine, Dasha e Pedro – só as caras que os dois últimos faziam, davam uma foto excelente…


Quanto aos pratos em si, não sei bem descrever… Havia um arroz, um com tofu, um com uns
vegetais que pareciam feijão-verde em miniatura, e um frango delicioso que era suposto ser comido usando como “garfo” uma espécie de pão indiano – excelente!

Fica uma foto de grupo, tirada no final do jantar, já de barriga cheia e depois de muita, muita conversa…

17 de outubro de 2008

Kaffe

Café

8ºC em Estocolmo, 22ºC em Portimão

Já há algum tempo que ando para fazer um post sobre o café na Suécia. De cada vez que bebo café cá lembro-me da Verinha e da sua insistência para irmos beber café ao bar da biblioteca, porque tinham Delta Platinum em vez de Delta normal, pelo mesmo preço! Lol, a sério, quem me dera ter um Delta do normalinho cá…

O pessoal cá não bebe aquele café curto, com espuma, de que nós tanto gostamos, mas sim o café aguado em copos de papel, tipo Starbucks – americanices! A verdade é que aquilo é mesmo horrível: por um lado, pode beber-se sem açúcar, porque de facto sabe a algo como água com um sabor ligeiramente amargo que lembra café, por outro lado se não se põe açúcar ainda menos graça tem, é como beber água que sabe mal. Lol.

Outra coisa sobre o café na Suécia: é caríssimo!!! O mais barato que encontrei até hoje é numa das cafetarias da faculdade (por sinal, bem longe de onde eu tenho aulas), 7 coroas. Que é como quem diz, 80 cêntimos. O preço “normal”, em qualquer restaurante ou quiosque é 15 coroas, ou seja, mais de 1€60 por água que diz que sabe a café. Não há bolso que aguente…

Por isso, hoje em dia levamos café de casa, do instantâneo, e fazemos na faculdade – temos uma sala de almoço com máquina de café mesmo ao pé do auditório onde temos aulas e juntamo-nos lá para tomar café. O que até é agradável, torna-se uma espécie de ritual de grupo, e até se conseguem ter discussões acesas sobre tópicos como: “Café com ou sem açúcar? Prós e contras” lol. Até que o Espen pergunta se alguém já bebeu café com mel (!), fica tudo espantadíssimo e depois a conversa descamba para algumas misturas bastante estranhas, tipo Bailey’s com leite morno :D

Uma última nota acerca do café: hoje saiu um estudo, que, dada a sua relevância, não passou das páginas do jornal gratuito “Metro”, sobre a relação entre a quantidade de café e o tamanho do peito das mulheres – a sério, houve pessoal de uma universidade sueca com FINANCIAMENTO para fazer um estudo destes, lol. Aparentemente, chegaram à conclusão que, se bebermos 3 ou mais cafés por dia, o nosso peito diminui de tamanho… Uff, vá lá que eu ainda só vou nos 2 por dia… :D

16 de outubro de 2008

Molekylära tekniker

Técnicas moleculares

8ºC em Estocolmo, 23ºC em Portimão

Como já devem ter percebido pela escassez de posts ultimamente, o trabalho começou a apertar… Ah pois é, que uma pessoa está cá é para fazer um mestrado e não para andar a saltitar de festa em festa, como tem acontecido ultimamente. Fiz a resolução de não ir a mais festas (OK, talvez uma ou outra, de vez em quando) e vou cumpri-la, que agora é altura de estudar e tenho o primeiro exame daqui a 2 semanas…

Falando de coisas sérias, as aulas estão a ser excelentes. A semana passada foi totalmente dedicada a técnicas moleculares usadas em Biomedicina, para estudos diversos, o que se traduziu em aulas sobre genotipagem, RT-PCR (os slides do Balau de GM ainda me serviram de alguma coisa!), microarrays, linfócitos e citometria de fluxo, os blots todos, transgénicos. Foi uma avalanche de informação em que, para cada aula, tínhamos toneladas de coisas para ler e perceber… Gostei particularmente de uma aula sobre como estudar processos de sinalização celular, passo a passo… Quanto à pior, um empate entre a dos ratinhos transgénicos, que tentou inserir uns 100 slides em duas horas – claramente uma má ideia, apesar de o tópico em si ser interessante, e a dos microarrays, em que o professor era um recém-doutorado, giro, com claramente menos de 30 anos, que não teve mão para aguentar um turno composto de 11 raparigas :D

Esta semana começámos no módulo cardiovascular, tem sido de loucos! Mas fica para outro post… Tenho que racionar, agora que o tempo e as novidades são escassos (serão?)

13 de outubro de 2008

Förra vecka

Semana passada

13ºC em Estocolmo, 23ºC em Portimão


Só porque tinha umas fotos em atraso, da festa Erasmus da semana passada, decidi fazer um post “em diferido”. A verdade é que o trabalho começa a apertar e tenho imensa coisa para
estudar e pouco tempo para escrever…

Mais uma festa Erasm
us, o formato não é novo, mas conseguimos juntar um número inédito de pessoas no nosso grupo, tanto pessoal do nosso prédio como do curso. Entre eles o Niklas, que demorei meia-hora a convencer até que finalmente o consegui arrancar de casa…

Houve de tudo: um tipo gay atirou-se ao Niklas (foi de rir!), dançámos que nem uns malucos, o Niklas e a Shermaine fizeram uma “drinking bet” em que por cada duas cervejas que ele bebesse ela tinha que beber
1 copo de vinho, mas perderam os dois – baixa resistência ao álcool levou à interrupção da bebedeira, dos dois lados… Por fim, até o Pedro se juntou a nós, mesmo estando muito cansado de mais um dia de trabalho. Ficam as melhores fotos…


Niklas, Iskra e Shermaine


Clarissa e Vivi - no drinks, just fun!


Já a Shermaine... ficou linda logo após o primeiro copo!


Olhem-me só a diferença de alturas (nota: a Clarissa estava de saltos :D)


Foto de grupo (não o grupo todo): Martijn, Karin, Jacomijn, Vivi, Albert, eu, Leoni, Shermaine
(de fora: Pedro, Clarissa, Niklas, Neil, Iskra, Madelinde e namorado, Hester, amigos do Neil)

12 de outubro de 2008

Fotboll

Futebol

13ºC em Estocolmo, 22ºC em Portimão

OK, eu sei, o jogo foi uma porcaria (para não usar pala
vras feias neste blog que até é lido por menores de idade :D). Mas foi uma festa na mesma…

Antes do jogo, andámos a passear por Estocolmo, eu, o N
iklas (o nosso guia), o Mustafa (o mentor da ideia), a Amani, o Xinming, o Espen, a Marike e a Dasha. Mais tarde, juntar-se-iam a nós a Iskra e a Giulia.

Niklas (o guia) e Mustafa (o ideota :P)

O grupo de "turistas": Mustafa, Niklas, Dasha, Marike, Amani, Xinming e Espen

Andámos um pouco por todo o lado, desde a casa da justiça à câmara municipal (onde é o jantar dos prémios Nobel), até junto do museu Vasa (uma das atracções de Estocolmo, um museu construído em torno de um navio de guerra que naufragou na viagem inaugural e que foi “repescado” do fundo das águas de Estocolmo e transformado num museu)… Foi giro, principalmente quando eu saquei do cachecol da selecção e comecei a andar pelas ruas assim vestida, com os suecos todos a olhar.

Um banco com o símbolo da selecção sueca no centro de Estocolmo: oportunidade ideal para uma foto!

A dada altura deixei o grupo e fui encontrar-me com o Pedro e o Tiago, que estavam com um amigo italiano, Antonio, que é um pagode. Antes de partirmos para o jogo ainda fomos a um bar para eles e o casal sueco que ia connosco beberem umas cervejas (suecos muito simpáticos e nada com ar de suecos, ela até nos cumprimentou com 2 beijinhos !)… Ao entrarmos na estação vimo-nos rodeados por um mar de suecos, azul e amarelo, e nós os 3 éramos os únicos de cachecol verde e vermelho. Mas até acabou por ser engraçado, eles olhavam para nós como se fôssemos uma aberração e até quiseram tirar fotos connosco…


À chegada ao estádio o espírito estava ao rubro. Os nossos lugares eram bem lá em cima, por trás de uma das balizas, sem hipótese nenhuma de aparecer na televisão – até porque os suecos fizeram questão de nunca filmar a claque portuguesa. Éramos pouquinhos, uns 2000 contra uns bons milhares de suecos (mais de 20 000), mas o que é certo é que nos fizemos ouvir mesmo por cima dos suecos, que estiveram a maior parte do jogo sentadinhos, muito compostos, a ver o jogo e a aplaudir ocasionalmente… Foi pena o jogo não traduzir o espírito que se viveu na bancada, o resultado foi mesmo mau. E de cada vez que o Ronaldo se atirava ao chão, eu só via a cara do Mario a dizer-me que odiava o Ronaldo porque ele estava sempre a mergulhar para o relvado… A verdade é que mesmo eu já me estava a enervar com aquilo.
Eu com o Pedro, Tiago e Antonio

No geral, valeu a pena. Convivemos com suecos e portugueses, fiquei sentada ao lado do Pedro e fartámo-nos de conversar no intervalo, ainda nos rimos com as parvoíces de adeptos dos dois lados e com o Antonio, que só dizia parvoíces. É sempre bom podermos estar num sítio tão longe de casa e sentir que, por alguns minutos, podemos estar rodeados de pessoas que se emocionam com as notas do hino e que gritam em conjunto, a plenos pulmões: “PORTUGAL!”

11 de outubro de 2008

Äventyret om den försvunna biljetten

Em busca do bilhete perdido

14ºC em Estocolmo, 18ºC em Portimão

Estive ausente durante uns dias devido a factores vários: aulas e trabalho a sério (finalmente), falta de tempo, mais uma festa Erasmus (fotos em breve) e uma enorme irritação devido ao jogo de futebol de hoje entre Suécia e Portugal.

Passo a explicar: como qualquer emigrante fora da sua terra natal, claro que queria ir ver o jogo entre as selecções sueca e portuguesa… Mas os bilhetes estavam esgotados desde o dia em que foram postos à venda. Descobri que ainda havia bilhetes em Portugal, na FPF… mas não tinha com quem ir, e ir para um estádio cheio de suecos, sozinha, à noite… não me parecia.

Até que conheci o Pedro, na semana passada. E ele ia ao jogo com o Tiago. De forma que… decidi ir ao jogo também, apesar de o preço do bilhete significar que durante o resto do semestre só posso sair para sítios onde não se pague :D Mas tudo na boa, o importante é que eu ia ao jogo, yey!

O bilhete foi comprado na sexta e posto no correio na segunda-feira, em correio expresso urgente, de forma a poder chegar cá a tempo do jogo. Deveria chegar na quarta-feira… Mas não chegou. Nem na quarta, nem na quinta, nem na sexta.

Este tipo de envio pressupõe um sistema de seguimento da encomenda / carta (neste caso) via internet. Quando na quinta-feira vou à net ver onde parava a minha carta, descubro que já estava em Estocolmo mas que não tinha sido entregue devido a endereço incorrecto – muito estranho, já que o endereço estava correcto, confirmei com a minha mãe. Vou aos correios para descobrir onde parava a carta e dizem-me que não havia registos de a carta ter chegado ao correio sueco, que talvez tivesse vindo por uma empresa de distribuição privada. Mais telefonemas, para a central de correios da Suécia, para uma das maiores companhias de entregas privadas, e nada… Já começava a desesperar.

Entretanto, em Portugal, a minha mãe ligou para o número de apoio do serviço expresso e eles abriram um processo de averiguação. Quinta à noite, nada e eu com uma grande irritação em cima, já a pensar nos mais de 60 euros perdidos...

Sexta de manhã, telemóvel ligado nas aulas, e tudo o que chegou foi uma sms da Clarissa (que por sinal estava sentada no mesmo auditório que eu e podia ter falado comigo no intervalo, mas não, mandar sms a meio da aula é mais giro) a convidar-me para um jantar. À tarde, chamada do meu pai a saber se há novidades, e eu que não.

15 h – Acabam as aulas, eu decido ir assistir ao treino da selecção que é já ali pertinho da universidade, já que provavelmente não vou ao jogo. Combinei tudo para ir assistir ao jogo pela tv com o resto do pessoal, num bar desportivo na nossa ilha… Que frustração!

15h45 – Chego ao estádio, dou a volta ao recinto para descobrir que o treino é à porta fechada. Nada a fazer, decido ir-me embora, dirijo-me para a estação de Solna.

16h05 – Chego à estação de Solna, toca o telemóvel, o meu pai finalmente conseguiu contactar alguém que lhe dissesse quem tinha a minha carta, uma empresa chamada DHL, dá-me o número de telefone e o número de identificação do pacote na Suécia (que como convém não é o mesmo que lhe atribuíram inicialmente em Portugal)

16h20 – 10 minutos ao telefone com a senhora da empresa para descobrir a estação onde estava a encomenda; ela dá-me uma morada algures em Estocolmo, que eu não tenho ideia nenhuma de onde fica, e diz-me que tenho que estar lá antes das 18h, hora de fecho. 1 hora e 40 minutos and counting down… Aproveito para perguntar qual é a estação de metro ou comboio mais próxima, a senhora diz-me para aguardar e… O meu telemóvel fica sem dinheiro.

16h30 – SMS (ou SOS) urgente para o meu pai, a ver se ele vê o mapa para me dizer onde raio é a tal rua. Apanho o comboio, saio na estação central para poder ter todas as opções de transporte à minha disposição e também para poder ir a uma das lojas que carregam telemóveis.

16h40 – Telemóvel carregado, ligo novamente para a empresa para eles me dizerem mais ou menos a zona da rua onde eu tinha que ir, o meu pai telefona e confirma +-, se bem que, sem mapa, não sei como ir para a rua a partir da estação.

16h50 – apanho novamente o comboio, apenas 2 estações de distância.

17h – Saio na estação certa, falta 1ª hora para o tempo terminar. Procuro um táxi, a única maneira de me orientar naquele fim-de-mundo (zona industrial, tão bom!), mas… não há praça de táxis, como convém.

17h05 – Telefonema ao Niklas, que me dá o número de uma companhia de táxis.

17h10 – Ligo para os táxis, dizem que me enviam algo já de seguida.

17h15 - O tipo dos táxis telefona-me, dizendo para aguardar 5 minutos pelo táxi e dando-me o número do mesmo, 48T.

17h20 – Chega o táxi, o condutor não fala inglês, mas lá aponto o endereço e ele parte na broa, cruzando umas quantas vias rápidas e zonas de fábricas cinzentas.

17h25 – Chegada ao destino. O motorista pergunta se eu quero que ele espere e eu que sim, claro, não faço ideia de como voltar para a estação e já estava a ficar de noite…

17h30 – Dentro do armazém, dou a referência da encomenda, o meu nome, assino papéis, mostro o passaporte, o homem desaparece dentro do armazém e…

17h35 – O homem volta de dentro do armazém com o meu envelope – finalmente!

17h40 – Já no táxi, de volta à estação, contemplo o meu bilhete com ar de incredulidade e adoração… Custou mas foi!

E lá fui eu apanhar o comboio para regressar a casa, depois desta aventura…

A sério (mas mesmo a sério), se a selecção não ganha, depois disto tudo… Eu mato-os!!! É contra os suecos, por amor de Deus, pelo menos dois golinhos têm que meter… Não?

Assim, planos para hoje:
Manhã – ler artigos sobre microarrays
12h30 – almoçar
13h – sair de casa
13h30 – St. Eriksplan, encontrar o pessoal para uma visita a Estocolmo
16h30 – encontrar Pedro e Tiago para irmos para o estádio
Das 17 às 20: entrar no estádio, encontrar os lugares, tirar fotos, conhecer mais portugueses :D
20h – pontapé de saída, gritar muito, sofrer muito, gritar “GOOOOLO” pelo menos duas vezes – é o que se espera!
22h – sair do estádio, irmos ter com o pessoal para uma after-party (como diz o Pedro, se ganharmos, bebemos para celebrar, senão, bebemos para esquecer…)

Eu diria que é um dia cheio de boas perspectivas… Depois conto como correu.

De qualquer forma, não se esqueçam:

SUÉCIA-PORTUGAL, HOJE A PARTIR DAS 20H SUECAS, 19H EM PORTUGAL

OLHOS ATENTOS À MIÚDA DE CASACO CASTANHO, CABELO ESCURO E CACHECOL DA SELECÇÃO, A PULAR QUE NEM UMA MALUCA, NA BANCADA DOS ADEPTOS PORTUGUESES!

6 de outubro de 2008

Nobel presskonferens

Conferência de imprensa dos prémios Nobel

12ºC em Estocolmo, 24ºC em Portimão

Hoje foi dia N na universidade. A excitação era grande e até na primeira aula da manhã, de apresentação da nova cadeira (o “cadeirão” do curso) a professora não se conteve e lá começou a debitar como estavam todos muito ansiosos porque o Presidente do Comité Nobel era do laboratório dela e não se descosia sobre os premiados…

As aulas da manhã foram, assim, passadas a saltitar mentalmente entre um pé e o outro, à espera que nos dispensassem para podermos correr para o outro lado do campus e tentarmos infiltrar-nos na conferência que iria anunciar o Nobel da Medicina 2008, para podermos saber em primeiríssima mão, primeiro que todos os outros que não estivessem naquele auditório, primeiro que o resto do mundo. As professoras, sensíveis ao nosso entusiasmo, encurtaram o nosso 1º intervalo e o próprio tempo da aula e, assim, depois de duas horas a ouvir falar do programa da cadeira, datas de exames e a importância da “Translational Medicine”, lá nos deixaram sair. E lá fomos em excursão, uns 20, para nos infiltrarmos na conferência. Não foi tão difícil como esperávamos, visto que chegámos ainda uns 20 minutos antes da hora e havia muito espaço livre de pé, junto à parede – obviamente que os lugares sentados estavam todos reservados a jornalistas e a inúmeras câmaras de televisão. Sentia-se o suspense, efervescente, no ar, nas conversas sussurradas entre uns e outros, que cessaram mal a conferência começou, às 11h30 em ponto, tal como previsto (pontualidade sueca!).

Não houve cá rodeios nem conversa inútil: direitos ao ponto, depois de uns breves agradecimentos. “O prémio Nobel da Medicina 2008 é, este ano, dividido entre Harald zur Hausen, pela descoberta da associação do HPV com o cancro cervical, e por Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, pela descoberta do HIV.” Os pelinhos até se arrepiam, pronto, já está, mais um prémio Nobel anunciado ao mundo mas, em primeiro lugar, a nós, naquela sala. Vê-se um frenesim de câmaras, flashes, telemóveis, o pessoal manda SMSs a contar as novidades a toda a gente que possa estar interessada em saber em primeira mão.

Seguiu-se uma apresentação sobre os laureados, o seu percurso, investigação e a descoberta em si, bem como a relevância da descoberta para o mundo. A parte do HIV foi especialmente interessante para alguém que estudou o assunto com alguma profundidade…

Por último, uma sessão de perguntas e respostas, que abriu com uma pergunta a abrir o caminho à polémica. A verdade é que houve 2 grupos independentes, no mesmo ano, a identificar o vírus: um nos EUA e um em França, mas só o francês foi premiado. O presidente lá respondeu que de facto, era consensual que a primeira descoberta tinha sido feita no Instituto Pasteur, mas não foi muito convincente, visto que houve outras pessoas com a mesma dúvida, apesar de ninguém ter colocado a pergunta uma segunda vez. O conceito de “quem identificou primeiro” torna-se difícil de justificar quando toda a gente sabe que os dois artigos de identificação do vírus foram publicados no mesmo número da revista “Science”, em páginas consecutivas… As outras questões prenderam-se com a reacção dos premiados (obviamente extasiados), o porquê agora, já que o HIV está em cima da mesa para a atribuição há anos, se já há promessas de vacinas para o HIV (infelizmente não) e a mesma jornalista da primeira pergunta, claramente a tentar despoletar controvérsia, a perguntar se o facto de o prémio para o HPV surgir agora, pouco depois de ter sido lançada a vacina (bem cara por sinal), não teria implicações comerciais, ou seja, fazer aumentar as vendas da vacina… E lá tiveram que relembrar a senhora que a descoberta de que o vírus causava cancro já tinha salvo milhares de vidas e que o prémio não era para a descoberta da vacina… embora eu compreenda onde ela queria chegar.

All in all, foi uma experiência inesquecível. Levámos a hora de almoço a discutir as implicações do prémio e a inventar estratégias para nos plantarmos à porta do auditório das Nobel lectures em Dezembro, às 6 da manhã, senão não se arranja lugar.

A aula da tarde, sobre SNPs e análise de genomas, foi interessante, sem dúvida, mas a nossa cabeça andava a voar bem alto… (O Mario, por exemplo, está radiante porque o tipo do HPV é de Heidelberg, a universidade dele!) Até uma pessoa fica com mais motivação para estudar :D