20 de setembro de 2008

Gratis

Grátis

15ºC em Estocolmo, 25ºC em Portimão

Sol em Estocolmo… A cidade torna-se mais bonita, as pessoas andam na rua com outra disposição, alguns até de t-shirt (sim, que isto estava um calor ontem! Uns 12 graus…) mas a verdade é que o sol anima e faz bem, nem que seja pela vitamina D :) Uma pessoa está a trabalhar, precisa de ir à universidade tratar de uns papéis e a viagem de 45 minutos de autocarro nem custa tanto, vai-se vendo as vistas…




(Vistas da nossa janela do corredor, com solinho)

Nesta altura também já deu para perceber que os suecos não são assim tão bons no que toca a burocracias, pelo menos relativamente a imigrantes. Coisas do tipo ir a um gabinete e mandarem-nos a um segundo, irmos ao segundo e recambiarem-nos para o primeiro, que eu pensava só acontecerem em Portugal, afinal não, aqui também há disso, também irrita, também deixa uma comichosice no estômago mas pronto, o que é que uma pessoa há de fazer…
Fui à loja da universidade a tentar comprar uma pasta para o meu PC, que a minha tem a alça estragada, para descobrir que se podem comprar desde canecas a toalhas de banho com o símbolo da universidade… Gostava de saber quantas vendem por ano, que aquilo ainda por cima não é barato. Das pastas nem sinal, só se comprar uma das mochilas mataconas e cor-de-rosa que para lá há e que toda a gente carrega orgulhosamente, por aqui. Se bem que uma mochila daquelas até pode dar bastante jeito para levar no avião… Tenho que pensar no assunto.

Adiantar trabalho de filosofia, abstract escrito e revisto, e toca a preparar para a festa desta noite. Encontrámos o coitado do Albert com uma constipação terrível que o deixou de cama, logo, desta vez não nos pôde acompanhar. Eu e a Shermaine seguimos para a maior comunidade estudantil de Estocolmo, Lappis, onde iria haver uma festa House, e o resto do pessoal ficou de lá ir ter mais tarde… Perdemo-nos pelo caminho mas lá chegámos, para descobrir que éramos as primeiras! Em Portugal seria normal ser-se o primeiro numa festa a chegar lá às 10 e pouco, mas na Suécia… O tipo do bar era um chef do Uruguai, muito simpático, que me serviu uma sangria muito bem feita e ainda me ofereceu uma bebida. Simpático, mas a festa não foi o sucesso que ele esperava… A música não era nada de especial e o pessoal demorava a entrar. Quando o resto das miúdas chegaram, decidimos ir a outro sítio e fomos apanhar o metro para a nossa ilha.

Depois de andarmos de bar em bar para descobrirmos que a maioria deles estava quase a fechar (ainda só era meia-noite e meia!), lá descobrimos um que só fechava às 3. Nem nós sabíamos onde nos íamos meter… Entrámos num bar cheio de rockeiros, daquele pessoal com cabelos compridos e barba enorme, eventualmente às trancinhas, guitarras eléctricas na parede, espelhos, candelabros. O sítio em si nem era mau, e a música, para quem gosta de rock, era boa. Nós é que destoávamos da multidão em geral… Depois de muito procurar, lá conseguimos encontrar uma mesinha, e nesta altura a noite não parecia ter muito a oferecer, estava tudo a pensar “bem, onde é que a gente se veio meter” (sim, por favor, tentem imaginar 6 raparigas bem vestidas, incluindo uma Marike muito sexy de salto alto, saia-lápis e top, no meio daquele maralhal…).

Entretanto… Sentou-se na mesa ao lado um grupo muito fixe, de pessoal mais ou menos da nossa idade, especialmente um rapaz que ficou sentado mesmo ao lado da Stefania e à minha frente. Ele meteu logo conversa, meio surpreendido por nos ver ali, a perguntar como é que tínhamos ido ali parar. Simpático, giro para quem não se importar com o cabelo meio à Kurt Cobain, conversador, chamado Andreas, um sueco de gema, de Estocolmo, que durante o dia trabalha numa espécie de instituição a tomar conta de pessoas com incapacidades e durante a noite vai beber uns copos com os amigos, por vezes dançar. É como eu dizia ontem à Clarissa: acho que nestas 3 semanas conheci mais rapazes “apetecíveis”, digamos assim, do que no resto da minha vida, lol. A Clarissa topou logo que eu estava um bocadinho apanhada e não parava de me enviar sorrisinhos do outro lado da mesa, foi uma tortura constante :D

Seguiu-se um episódio engraçado que deixou os suecos estupefactos. Segundo uma conversa que eu e a Stefi estávamos a ter com o Andreas, as raparigas suecas são muito independentes e tomam sempre a iniciativa e levam a mal se o rapaz lhes pagar uma bebida, logo os suecos geralmente não oferecem bebidas às raparigas porque para elas é uma ofensa, como se o homem pensasse que elas não têm capacidade de se sustentar. Manias… E tinha eu acabado de realçar como foi justamente na Suécia que um homem me tentou pagar uma bebida, contrariando a teoria dele, quando, ainda nem 15 minutos passados dessa conversa, a empregada do bar se chega à nossa mesa e começa a descarregar cervejas. “Descarregar” é o termo. Eu ao princípio nem percebi o que se estava a passar, pensei que ela estava a usar a mesa como ponto de apoio ou assim, visto que nós não tínhamos pedido nada… Afinal foi um homem de uma das mesas do lado que deve ter achado que nós queríamos embebedar-nos e decidiu dar-nos uma ajudinha, mandando a empregada levar para a nossa mesa, nada mais, nada menos, que 18 cervejas, ou seja, 3 para cada uma! Lol sem comentários, e eu que nem gosto de cerveja por aí além… Os suecos da mesa ao lado só olhavam de olhos esbugalhados, o Andreas abanava a cabeça e dizia “nunca vi uma coisa assim”, e o homem acenava lá do fundo…

Resultado, lá distribuímos as cervejas, já que aquilo era pré-pago, logo, de qualquer forma ele já tinha gasto o dinheiro, inclusivamente por alguns dos rapazes da mesa ao lado, que não se fizeram rogados (obviamente que nós não conseguíamos beber 3 cervejas cada uma, até porque eu e a Clarissa não apreciamos especialmente). Pois o tal homem, não satisfeito, como viu que algumas de nós não estavam a beber as cervejas, chegou-se ao pé da nossa mesa e disse-nos para pedirmos o que quiséssemos à empregada que ele pagava e voltou para a mesa dele. O mais estranho disto tudo é que, supostamente, ele devia estar a oferecer-nos bebidas com alguma intenção, mas nem por uma vez se dirigiu a nós para tentar meter conversa. Às tantas, e vendo que nós não pedíamos nada à empregada, tomou ele a iniciativa e lá aparece ela na nossa mesa com dois shots para cada uma. Sem palavras… E até eram bons, não tinham muito álcool e sabiam a morango :P Se as bebidas não estivessem a ser trazidas pela empregada a gente ainda desconfiava, mas neste caso foi apenas muito estranho. Não nos queixamos, visto que acabámos por beber de graça :D

Em suma, saldo da noite: uma festa e um bar, um tipo muito giro, 4 bebidas de graça e uma a pagar, para além da habitual conversa e parvoíce… Eu diria que foi um saldo positivo ;D

18 de setembro de 2008

Rytm

Ritmo

11ºC em Estocolmo, 21ºC em Portimão

Ontem foi um dia normal mas ainda assim divertido… Acordar tarde devido ao cansaço da noite anterior, ir às compras, descobrir que a minha encomenda finalmente chegou de Portugal, fazer almoço, iniciar uma tarefa hercúlea que ainda não está concluída – a limpeza do forno da nossa cozinha. Deixem-me explicar devidamente o problema… Eu para cozinhar utilizo o forno bastantes vezes, mas ainda não me atrevi a usar o nosso forno (tal como ninguém mais o utiliza) visto que tem o aspecto de ter sido utilizado por gerações sucessivas de inquilinos do nosso corredor, quiçá desde os tempos mais primordiais, sem nunca ter visto a cara de um pinguinho de detergente. Deixem-me pôr isto por menos palavras com uma imagem muito simples: depois de borrifar com um daqueles limpa-tudo tipo Cif e passar um papel, este veio com o aspecto de ter passado por uma estação petrolífera – completamente preto. O fundo tinha pedaços de coisas carbonizadas, a porta do forno, que em tempos terá sido transparente para se poder espreitar o que estava a cozinhar no interior, estava castanha. Ou seja, o suficiente para qualquer pessoa fugir a sete pés e nem se atrever a tentar limpá-lo. Mas nada que me demovesse, que eu tenho em mente umas quiches e lasanhas para as quais o forno é ferramenta indispensável… Em suma, entre ontem e hoje já passei umas duas horas só a esfregar, tenho as unhas numa desgraça, mas ao menos ao passar o pano no fundo já não vem preto (cinzentinho, vá) e a porta já está mesmo quase transparente! Ai de quem se atrever a sujar o forno depois disto…

Depois de almoço, lá fui levantar a minha encomenda, felizmente acompanhada, que aquilo era grande como tudo. Ao voltar para casa finalmente escrevi o meu abstract para Scientific Writing, só falta enviar. O jantar teve que ser adiantado, visto que hoje era dia da primeira aula de salsa! Fiz uma massada de camarão que ficou uma maravilha… Para inveja das minhas companheiras de corredor – aliás, a Dasha até disse que tem que tirar fotografias da comida que eu faço para enviar à mãe dela! Lol…

Entretanto, tinha passado o dia a trocar mensagens com o meu novo amigo português, a convidá-lo para ir connosco à aula de salsa, já que é na universidade dele. Ele respondeu que não podia, porque hoje tinha uma noite de póquer combinada com os amigos, mas se eu não queria passar lá. E eu que não, que estava com umas amigas, mas que depois combinávamos. O engraçado disto tudo é que eu estou a escrever mensagens em português e viro-me para a Dasha e começo a falar com ela também em português – e a coitada a olhar para mim com cara de boi a olhar para palácio, claro…

Quanto à aula em si, foi muito gira. Dividiram-nos em dois grupos, os principiantes e os intermédios. Claro que a Clarissa foi a única a ir para a outra sala com os dançarinos mais avançados. Quanto a nós, ficámo-nos pelo grupo que ainda tinha que contar os passos: “One two three… Five six seven…” e assim por diante. Perna esquerda para a frente, perna direita para trás. Dividem-nos em dois grupos, raparigas para um lado, rapazes para outro. As raparigas fazem os passos ao contrário, mexem os ombros, enquanto que os rapazes são mais rígidos (porque, como dizia a instrutora, se eles movessem os ombros iam parecer… e para não concluir a frase como todos nós pensávamos que ia concluir, lá se saiu com um “estranhos”). Aprendem-se passos mais complicados, um em que se trocam os pés cujo nome não consigo apanhar, voltas para a esquerda, voltas para a direita, depois tudo junto: básicos, passos esquisitos, volta para a esquerda, volta para a direita.

E vamos para os pares… Eu tive azar, fui “caçada” por um iraniano que não era lá grande dançarino (eu também não, diga-se de passagem). Mas pronto, ainda deu para praticar as voltinhas a pares, que são bem mais difíceis do que parecem. A parte mais gira da aula foi mesmo no fim, quando puseram música para o pessoal dançar – nessa altura troquei de par, para um tipo que não sei de onde era, mas era mais giro e claramente europeu, e que tinha um amigo lindo de morrer. O que estava a dançar comigo não tinha sentido de ritmo absolutamente nenhum, era muito lento e trocava os pés – não se safou de uma pisadela, não por culpa minha, mas porque ele veio para a frente quando era suposto ir para trás. Mas o amigo… Às tantas pedimos para o amigo nos ensinar um passo que ele estava a fazer com o seu par (uma rapariga muito bonita e também uma excelente dançarina) e lá veio ele dançar comigo por um bocadinho… Foi o melhor minuto da noite! No geral, gostei muito da aula. Íamos para o metro e volta e meia alguém começava “one two three”, a contar os passos… E podemos sempre fazer umas sessões de treino no nosso corredor, já que o Albert também vai ter aulas de salsa (mas noutro sítio). Hopefully, na próxima semana também vou ter um par melhor que o de hoje, já que o Alex prometeu que na próxima semana se juntava a nós…

Erasmus

(vá lá, esta não precisa de tradução!)

8ºC em Estocolmo, 20ºC em Portimão

Quarta-feira, de volta às aulas… Scientific writing de manhã, duas horas, uma delas à volta de como escrever uma tese, a segunda sobre posters. No final da primeira aula, a Su, que é a nossa comandante (está sempre a par de tudo), lá nos disse que era preciso eleger 3 representantes do curso para uma coisa tipo conselho pedagógico, representantes esses que ficam responsáveis de recolher feedback sobre as cadeiras / profs no final de cada cadeira (ou seja, aqui somos mesmo encorajados a falar e a discutir sobre o que correu mal e NÃO NOS TENTAM CHUMBAR POR ISSO :D). A parva aqui lá se oferece, juntamente com mais 4 ou 5, e acabamos por ser eleitos a Su (com 10 votos, sem surpresas), eu, com 4, e o Mario, também com 4. Ou seja, agora sou uma senhora representante do curso :). Não deixou de ser giro quando, na altura de contar os votos, o Mustafa adiciona o nome “Obama” à lista de candidatos. Ninguém votou no pobre do Obama, mas esperemos que seja bem diferente daqui a uns mesitos…

No fim da aula, o Mario desafia-nos para irmos comer lasanha a casa dele e eu, a Dasha e a Clarissa aceitamos o desafio. Lá vamos nós, juntamente com o Espen, que agora como mora com o Mario vai com ele para todo o lado. Depois de algum tempo em transportes para lá chegar, vamos ao supermercado comprar a “matéria-prima” e depois para casa dele, para cozinhar a bela da lasanha. Eu abstive-me dessa parte, visto que as lasanhas que eu faço são mais à base do refogadinho com produtos frescos e não de molho de tomate de compra. Mas pronto, a verdade é que até estava saborosa, apesar de ter dado uma dorzinha de estômago a seguir. A acompanhar a lasanha, vimos um filme com o Gael Garcia Bernal, muito giro mas estranho, sobre sonhos…

Enfim, chegada a casa, muita coisa para fazer e pouco tempo, antes de ir para a festa Erasmus com o Albert. Ele chegou quando eu tinha acabado de jantar e disse que tinha encontrado uma rapariga alemã no corredor que também ia connosco. Oooohhhhh… Lol.

A festa foi muito gira mesmo. O espaço era enorme, com zona de dança, zona de bar, zona para o pessoal se sentar e simplesmente conversar… A alemã (não consigo atinar com o nome dela) era muito simpática e fartámo-nos de conversar os três. Descobri, por exemplo, que o Albert tem 1,98 m (!) ou seja, eu e a Clarissa, que tínhamos apostado, respectivamente, que ele tinha 1,99 e 1,97, empatámos e ninguém leva o prémio para casa. Fomos dançar, principalmente eu e o Albert, visto que a alemã era um bocado mais contida e só ao fim da terceira cerveja é que se juntou a nós. No final de contas, foi uma noite bem passada...

A parte mais gira viria no fim. A alemã quis-se ir embora às 11h30 (apesar de eu, por mim, ainda ficar mais tempo) e lá fomos buscar os nossos casacos. Enquanto esperava, comecei a ouvir um palavreado que me soava a familiar… Viro-me e as minhas suspeitas confirmaram-se: portugueses! Dois rapazes e duas raparigas… Foi pena estar a ir embora (eles ainda me disseram para ficar, mas eu depois não tinha com quem ir para casa), mas ainda troquei número com um deles, chamado Alex, muito simpático mesmo… Agora é só combinarmos qualquer coisa juntos. Mas soube tão bem falar em português, mesmo que só por 5 minutos...

Tisdag

Terça-feira

10ºC em Estocolmo, 22ºC em Portimão

Terça-feira: dia de (suposto) trabalho. De facto, os trabalhos de casa de Inglês (sim, eu tenho TPC) ainda foram concluídos, e para dizer a verdade, também começámos e acabámos o poster na segunda à tarde, mas ainda falta muita coisinha para fazer… A meio de um dia passado entre a secretária e os trabalhos domésticos, a Dasha lá me arrastou para fora de casa, para irmos dar uma voltinha a Gamla Stan. Adoro aquela ilha, tem lojas tão giras… É de perder a cabeça só de olhar para as montras… e para os preços! Cheguei à conclusão que os chapéus lindos que experimentei no outro dia custavam, não 70 coroas (cerca de 7 euros), mas 795 coroas (ou seja, 80 euros)!!! Muito dinheiro por um simples chapéu… Acabámos por subir a um miradouro (137 degraus!) com uma vista espectacular do centro de Estocolmo. Vista linda, mesmo com nuvens, mas um frio de rachar…

De volta à residência, depois de uma paragem numa banca de fruta e legumes, o cansaço mental era demasiado para continuar a trabalhar a sério, por isso tratei de passar roupa, dobrar roupa, arrumar gavetas, ver se consigo dar alguma organização ao caos que é o meu quarto.

A melhor parte do dia foi, sem dúvida, o jantar… Quando para lá fui fazer o jantar, encontrei a Dasha, a Shermaine e a Jacomyn já a comer. Conversa para cá e para lá, elas acabam de comer quando eu vou a começar e entra o Pedro e, pouco depois, o Albert. A conversa continua, como foi o dia de um e de outro, o meu, sem dúvida, o mais secante, o Pedro sai, ficamos os dois. O Albert é um estudante de Medicina, alemão, da Bavária, que está cá por seis meses num intercâmbio… A conversa continua, porque é que ele foi para medicina, porque é que eu escolhi biomedicina, passamos para o serviço militar alemão, para o pessoal do meu curso, para o pessoal do corredor, para a festa do corredor no dia 27, para a filosofia de vida dele (mínimo esforço, como qualquer bom rapaz – comer directamente da panela e beber o sumo directamente do pacote, para não ter muita louça para lavar…). No meio de tanta conversa, deu tempo para a Madelinde (outra holandesa) entrar, fazer o jantar, comer e sair, e quando o Pedro entrou novamente na cozinha uma hora depois de ter saído de lá, não me espanta que tenha perguntado: “Ainda cá estão?”

16 de setembro de 2008

Fila (ou bicha, como preferirem)

8ºC em Estocolmo, 21ºC em Portimão

O dia começou cedo, a tratar de burocracias. Primeiro o Tax Office (para receber um Swedish Personal Number) e depois o Migration Board para me registar como residente na Suécia. Foi giro registar a diferença de eficiência em ambos os sítios…
Tax Office: estamos de facto num país civilizado. Sofás para o pessoal se sentar, balcões com canetinhas e cadeiras para se preencher os papéis, atendimento rápido e eficiente, quase que não se espera… Fiquei muito bem impressionada.
Depois passa-se de Södermalm, uma das melhores zonas de Estocolmo, onde fica o Tax Office, para Solna, nos subúrbios, onde fica o Migration Board. Dezenas e dezenas de pessoas (momentos antes de ser atendida, contei cerca de 100). Cadeiras de plástico, mas confortáveis, não digo que não, já não há canetas à disposição nos balcões, a espera é interminável. Olha-se em volta e vemos que de certa forma não estamos na Suécia, pois é raro ver-se uma cabeça loura. Negros, morenos, cabelos escuros, homens sozinhos, com ar cansado, pobre ou simplesmente normais, alguns acompanhando as mulheres, controlando a situação, mulheres essas tapadas da cabeça aos pés, com um rebanho de crianças à volta, crianças de todas as idades que brincam umas com as outras, amizades que se fazem, o choro de um bebé recém-nascido, uma mulher iraquiana com uma t-shirt decotada a dizer “Come to mummy” (?!), um húngaro quieto, de óculos, sentado a um canto, barulho, um pequeno caos bem diferente do ambiente calmo e frio do Tax Office, uma confusão que não chateia tanto como reconforta, porque sentimo-nos mais próximos daquelas pessoas de cabelos negros do que das frias louras dos balcões de atendimento que nos despacham como quem despacha uma encomenda.
Ironicamente, o balcão da União Europeia era o com menos pessoas a atender (só 1 homem), logo, demorei mais de uma hora só à espera dos 5 números que estavam à minha frente…
Lá fui para o campus, pagar a renda aos serviços de alojamento; lá fui almoçar a uma cafetaria cheia de gente onde tive que esperar mais de 15 minutos numa fila só para colocar o meu tupperware no microondas; parece-me que passei a manhã numa única fila interminável…

A tarde de trabalho de grupo, por uma vez, rendeu; tomei as rédeas à situação para evitar mais discussões sem fim à vista e o trabalho avançou bem, a tarde toda, e lá conseguimos acabar o nosso poster que, devo dizer, ficou bastante bem, ao fim de 5 horas de trabalho árduo! A meio da tarde, a minha mãe telefona-me e foi bastante engraçado, pois de repente apercebo-me de que estava tudo a ouvir a minha conversa – uns deviam achar simplesmente graça a ouvir falar português, a Marike perguntava ao Mario se percebia alguma coisa por causa da sua namorada brasileira, ao que ele respondia que não, o Espen, que agora está a morar no chão do quarto do Mario e por isso anda sempre com ele, aguçava o ouvido a ver se percebi. Quando desliguei, perguntei-lhe: “So, did you understand anything?” Ao que ele respondeu (em português, claro!): “Gosto do som da sua voz…” Sem comentários!

Regresso a casa, fazer jantar. Sopinha de alho francês, ovos mexidos com salsichas acompanhados por uma saladinha de tomate e alface. Entretanto o Pedro (espanhol) e o Albert juntam-se a mim; a conversa começa, como foi o teu dia para cá e para lá. Às tantas o Albert e o Pedro começam a falar entre eles em espanhol e eu divertidíssima, porque não sabia que o Albert falava espanhol (e bem! Resultado de apenas um mês passado em Espanha) e porque, obviamente, percebia tudinho. Às tantas lá se aperceberam do meu sorrisinho e perguntaram-me, em espanhol, se eu percebia, e eu que si, por supuesto! Descobri que o Albert vai ao ginásio todos os dias e que vai juntar-se a umas aulas de salsa – uma coincidência, visto que eu também vou começar a ter aulas de salsa (mas as minhas de graça) esta quinta-feira!
Sai o Pedro, entra a Jacomyn, a conversa continua. O Albert vai buscar os posters que esteve a imprimir sobre a festa do corredor, discutem-se detalhes, acabo de comer os ovos e passo para a fruta, fala-se de cinema e do trabalho no laboratório. A Jacomyn convida-me e ao Albert para umas panquecas com gelado e, obviamente, não recusamos… Ouço falar de mais duas festas, uma na quarta, outra na sexta e mais uma vez a agenda social da semana fica preenchida. Chegam mais dois holandeses, Madeleine e Martin, a primeira começa a fazer o jantar, o outro junta-se à conversa… Entretanto o Albert e o Martin decidem armar-se em rapazes de entregas e fazer a distribuição dos posters pelo corredor e caixas do correio, enquanto nós ficamos na cozinha. A Jacomyn é acometida de uma fúria arrumadeira e decide reorganizar os frigoríficos (hoje houve uma situação chata, com o Pedro e o Paul a escolherem a mesma prateleira e o primeiro acabou por deitar fora coisas do segundo, o que deu azo a umas demonstrações de testosterona na cozinha); imprimem-se novas folhas para organizar as prateleiras por quartos, retiram-se frascos e frascos de coisas fora do prazo deixadas por hóspedes prévios há demasiado tempo atrás, retiram-se gavetas e prateleiras que são limpas sem piedade; acabei por me juntar à vaga de arrumação, enquanto os dois rapazes basicamente gozavam com a nossa determinação.

Limpeza terminada, cada um para seu quarto, excepto eu, que fui apanhar a roupa à lavandaria, vim ao Skype falar com amigos e família, saber que o meu maninho que começou hoje a vida de universitário teve um dia do pior:( ; dobrei roupa, falei com mais uns quantos, e este speed todo à 1 da matina deve-se somente ao café que bebi a meio da tarde “to get the work going”. Amanhã vai ser lindo para acordar…

14 de setembro de 2008

Toalett

WC (casa de banho)

9ºC em Estocolmo, 24ºC em Portimão

Mais uma noite, mais uma saída… Que começou com um episódio bastante estranho, diga-se de passagem. Íamos nós para a paragem de autocarro quando vemos um velhote vestido só com uma bata de hospital e uma fralda (com aquele frio!) que parecia mesmo ter fugido do hospital. Lá telefonámos para o 112 para o irem buscar, mas entretanto conseguimos chamar também a atenção dos seguranças do hospital que o levaram para dentro… Entretanto, o “nosso” hospital parece também o local de encontro da máfia aqui da zona – estão sempre aqui reunidos todas as noites e de repente vão-se todos embora ao mesmo tempo, nos seus brutos carros (Audis, Mercedes e outros que tais) a acelerar até se sentir o cheiro a borracha queimada. É bom ter vizinhos assim...

Ontem à noite o nosso amigo Albert (alemão) do corredor juntou-se a nós na nossa saída; no autocarro encontrámos ainda a Sophia, uma das nossas companheiras de equipa – foi difícil reconhecê-la sem os óculos dourados e a pele de leopardo!

Quanto à festa, resume-se muito rapidamente: mais de meia-hora para entrar, outros 15 minutos de fila para deixar os casacos, mas a música era boa… Dançámos até fartar, até os pés doerem, até aos limites da loucura, até a alma ficar limpa… Foi óptimo, divertimo-nos imenso! Quanto a rapazes, chegámos à conclusão que aqueles em que estávamos “de olho” iam muito bem acompanhados, por suecas louras e curvilíneas… Ficámos todas destroçadinhas… :( Lol, como diz a Clarissa: “Men are like toilets: the good ones are taken, the rest is full of shit.” (o que a gente se riu!) Ficam algumas fotos para mais tarde recordar…

Eu e a Sabrina a curtir à grande!

Eu com a Jacomyn e o Martin, ambos do meu corredor...

Shermaine, Dasha, Sabrina e Su...

Girl power! (Shermaine, Stefania, Clarissa, Dasha, Sabrina, eu e Su)


Quanto a hoje, foi só dormir, comer, tratar da roupa suja e começar a trabalhar. Tenho esta semana livre de aulas (a não ser na 4ª feira) mas trabalho a montes… Para variar, que isto não podem ser só festas!

13 de setembro de 2008

Vi älskar juryn

Nós amamos o júri

10ºC em Estocolmo, 27ºC em Portimão

Ontem chegámos tarde para inscrever a nossa equipa, mas lá conseguimos descobrir onde era o local das “actividades de recepção aos novos alunos” para ver se nos aceitavam mesmo em cima da hora. E aceitaram, de facto…

As praxes foram há 3 anos atrás e nunca pensei que fosse estar na mesma situação outra vez, lol. Mas dizem que a idade é um estado de espírito, certo? De facto, a maioria do pessoal que lá estava eram caloiros de licenciatura, e depois nós as 4, que já não pudemos formar a nossa própria equipa e tivemos que, assim, juntar-nos a uma pré-existente que estava com falta de elementos.
De facto, não estávamos bem conscientes das regras do jogo: cada equipa ia vestida a rigor, segundo um determinado tema – por exemplo, uma equipa ia toda vestida para a neve, até tinham um trenó! Havia uma outra em que todos os membros eram personagens de histórias, desde a Pipi das meias altas à Sailor moon; numa outra, ia cada um de sua cor com balões a condizer atados à cintura.

Mas a nossa… Era uma banda, com direito a flauta e guitarra, inspirada num grupo sueco de pop / electrónica dos anos 80 com o nome fantástico de “Bana
nas Eléctricas” – LOL. Claro que não estávamos muito a condizer (ai se eu soubesse tinha trazido as minhas calças de leopardo :D) mas lá nos pintalgámos e entrámos no espírito da equipa.

Havia 5 regras básicas para ganhar pontos (a ver se me lembro de todas): ganhar os desafios; os fatos em si (aí é que estávamos pior); o espírito de equipa e a animação; a canção da equipa; e a última era, basicamente, dar graxa ao júri. E, realmente, nesse ponto, a nossa equipa tinha tudo pensado… Enquanto as outras equipas, pelo que vi, se limitavam a dar uns abraços de grupo com o júri no meio ou distribuir bolinhos, nós começávamos, em cada prova, por estender uma passadeira vermelha para o excelso júri não sujar os pés, distribuíamos doces, tínhamos corações pendurados ao pescoço a dizer como amávamos o júri e no final de cada prova dávamos uma rosa a cada jurado (entregue boca a boca, mas não por mim, não se ponham com ideias…). Para além disso, houve outros eventos de graxismo, tais como a Clarissa dar uma aula de salsa a um elemento do 1º júri (que afinal sabia dançar maravilhosamente bem) ou darmos umas massagens a umas juradas (pelos rapazes da nossa equipa), enquanto esperávamos por uma equipa concorrente; até a nossa própria canção era sobre o júri e tinha uma letra do tipo “Vi älskar juryn”, ou seja, nós amamos o júri…



As provas propriamente ditas não eram particularmente originais, e ficavam muito em linha com aquilo que fizemos nas nossas praxes há três anos ou com quaisquer jogos deste evento. Talvez a primeira fosse a mais invulgar, mas porque acho que em Portugal ninguém arriscaria a saúde de dois computadores portáteis completamente em bom estado, usando-os como alvo… Sim, de facto a primeira prova tomou lugar no jardim junto à Biblioteca Real, e basicamente, como os suecos têm, quase todos, computadores Mac (Apple) e não PCs, tínhamos que usar Apples (mas das frutas) para deitar abaixo 2 PCs que estavam empilhados a uns metros de distância. Não é tão fácil como parece, até porque não podíamos atirar as maçãs directamente com as mãos mas tínhamos que, em vez disso, usar uma espécie de fisga, o que fez com que conseguíssemos pouquíssimos pontos.

Mas ao menos engraxámos o júri bem engraxado (e eram tão giros…).
A segunda e a terceira provas eram numa praça perto da estação central, com uma fonte (como convém…). A segunda consistia, basicamente, em dar uma trinca na maçã dentro de água, meter a cara na farinha para comer um rebuçado, deitarmo-nos no chão em fila e passarmos uma carta boca em boca de uma ponta à outra, sem usar as mãos.
Claro que deu azo a muita risota e a fotos bastante comprometedoras… O último desgraçado (um rapaz, por sinal, que se sacrificou pela equipa) tinha que ir a correr para dentro de água e fazer flexões (também é nisto que a graxa ao júri ajuda – o nosso só fez 3 flexões, enquanto vimos outra equipa em que fizeram 12…). Numa terceira prova, tínhamos de passar um ovo por dentro da roupa de toda a gente da equipa e quando chegou ao fim o que estava a passar o ovo teve que o comer (foi o mesmo coitado das flexões)…
Depois disso fomos até à praça do centro cultural de Estocolmo, onde cumprimos mais duas provas: uma de dança, em que era um desafio, nós contra outra equipa, em que dançávamos diversos estilos de música, primeiro dois contra dois, depois as equipas inteiras… A Clarissa acabou por ir buscar uns homens que estavam a olhar e acabámos por pôr montes de gente que não tinha nada a ver com aquilo a dançar também, foi o máximo.


A segunda prova nessa praça foi mais original mas
também mais cansativa, mas acabámos por ser o melhor grupo até ao momento (com bastante sacrifício, diga-se de passagem…): o júri tinha um baralho de cartas e, para cada carta, dizia o nome de duas partes do corpo (um dos nomes sempre em latim) e nós tínhamos que segurar a carta entre essas partes de duas pessoas. Nada de mal, não fiquem com ideias, mas 10 pessoas (o tamanho da nossa equipa) ligadas entre si por várias partes do corpo, tipo “calcanhar com cintura”, “joelho com estômago”, “nariz com orelha”, etc., é obra. O mais engraçado foi mesmo “boca com Gluteus maximus”, em que uma coitada ficou a segurar uma carta ao rabo da Clarissa durante a prova quase toda…

Perdíamos quando deixássemos cair uma carta, mas ainda conseguimos segurar umas 20, entre todos, o que foi bastante positivo (mal posso esperar para ver a foto de grupo que a guia tirou, porque eu estava bem lá no meio e não faço ideia do aspecto geral…). A última foi mesmo a pior, pelo menos para mim, que saí lesionada – basicamente competíamos directamente com outra equipa e a que acabasse primeiro ganhava. O desafio era correr até ao outro lado do jardim, rodar 7 vezes com a testa apoiada num pau de vassoura, voltar para trás a correr e dar passagem ao próximo, etc. Quando regressávamos, tínhamos um doce atado à cintura que tínhamos que comer sem o tocar com as mãos… Escusado será dizer que… Dei um tombo, lol. Depois de andar 7 vezes à volta, tentar correr a direito dá geralmente mau resultado. Mas lá me levantei e voltei para trás e comi o meu doce com relativa facilidade… No final ganhámos mais este desafio, isso é que é importante. Só foi pena ter que fazer estas figuras à frente de tipos tão giros…

Ah pois é, lembram-se daqueles rapazes da mesa de ontem, 4, todos giros e simpáticos, um dos quais aparentemente é o novo amor da vida da Clarissa? Estavam lá, todos eles, não como participantes mas como guias de diferentes equipas (não da nossa, mas dos nossos concorrentes)… Primeiro vimos o loiro da Clarissa, que estava com um estilo… Todo bem vestido, até dava gosto. Depois disso, naquele último desafio em que eu fiz as figuras mais tristes da história (mas ganhámos!), estavam dois outros rapazes da mesma mesa, que mal eu cheguei com a equipa começaram a apontar para mim tipo “Olha já conhecemos aquela…” Enfim, é a vida. Mas realmente, hoje estávamos a comentar entre nós as 4 (que começamos a formar uma “sisterhood” tipo Sexo e a Cidade, já decidimos os papéis respectivos e tudo), esta cidade tem rapazes giros às carradas… Se continuarmos a usar o código da Clarissa e da Stefania (de rodar o dedo junto ao canto da boca quando se vê um gajo giro), é como dizia a Shermaine hoje, no final dos dois anos do mestrado temos um buraco no meio da cara…

Chegámos a casa estafadas, foi comer e dormir. Acordar a meio da tarde, arrumar coisas, fazer e comer jantar e segue-se mais uma saída – no âmbito do mesmo evento de recepção aos alunos, uma festa até às 3 na associação. Yey! Vemo-nos amanhã, então…