27 de outubro de 2009

Konferensen

A conferência

6ºC em Estocolmo, 25ºC em Portimão

OK, depois de muito reclamar das minhas leitoras :P lá me decidi a fazer um pequeno post, por entre centrifugações e amostras, em directo do laboratório. Eu já tinha dito que ADORO este laboratório? Se calhar não, mas a descrição detalhada vai ter que ficar para o próximo post. Por agora, fico-me por mencionar a conferência a que fui na 6a feira (enquanto certas pessoas se passeavam por Amesterdão, e tal, para fazerem o pessoal sentir-se mal).

O encontro anual do departamento teve lugar no meio do mato, que é como quem diz, num hotel nos subúrbios de Estocolmo. Lá foi o pessoal todo, excelsos cientistas e meros estudantes, em dois autocarros alugados que nem visita de estudo, a maioria de posters em punho, prontos para as apresentações. A maioria das apresentações foram muito interessantes, tínhamos sempre café, chá e bolos à disposição nos intervalos, a única coisa que ajudava a enfrentar aquelas horas matinais... Aliás, deixei-me de dormir durante uma das conferências, lol. O melhor desse episódio: deixei-me de dormir enquanto tirava notas e quando regressei a um estado consciente, reparei que tinha escrito uma palavra enquanto passava pelas brasas: guys (gajos). Lol. Nem o meu subconsciente me deixa em paz...

Mas o giro destas coisas nunca é a parte científica. Pronto, a ciência é interessante, mas giro giro é observar os cientistas quando se apanham num ambiente mais descontraído - e com bebidas à borla. Ninguém prestou muita atenção aos posters, as conferências foram seguidas umas com mais interesse que outras, mas a diversão começa quando o pessoal se apanha com bar aberto. Para além disso, os organizadores da conferência puseram o pessoal a jogar Guitar Hero (não, não estou a gozar) como forma de estimular o convívio, e foi giríssimo ver aqueles velhotes do comité Nobel todos contentes a jogar contra a malta nova (e a perder). O Takaharu, do nosso laboratório, até foi à final, mas perdeu.

Seguiu-se o jantar, a entrada e o prato nada de especial mas as sobremesas até eram boas. E no fim houve discursos e prémios para os melhores posters e conferências (desde garrafas de champanhe a câmaras para Western blot a livros a (?!) bolas de malabarismo. lol.). E foi ao jantar que eu cometi o erro, não pela primeira vez, de discutir a existência de Deus com um fanático religioso. Claro que, quando começámos, eu não sabia que ele o era, mas isso tornou-se bem claro ao longo da discussão, que acabou mal. E mais: ele é do meu laboratório e senta-se à minha frente todos os dias: ontem e hoje ainda não me falou (apesar de supostamente eu ter sido a "ofendida" e ele até ter dito que me ia pedir desculpa).
Pessoal do meu lab na mesa do lado: começando pela esquerda e no sentido dos ponteiros do relógio, Kristian J., Andreas, Ingrid, Camilla (a boss!), 3 japoneses do departamento (não sei o nome deles...)

Depois de jantar, seguiu-se a festa, este ano sem tanta gente visto que não ficámos a dormir no hotel, mas ainda assim jeitosa. Tivemos bebidas de borla através de "senhas de bebida", por alguma razão toda a gente que tinha senhas de sobra dava-mas (não sei se me achavam com cara de bêbeda) e eu acabei por não usar nenhuma e a única bebida que tomei foi paga pelo meu supervisor. O pós-doc alemão do meu lab, o Andreas, só gozava comigo de cada vez que alguém (quase sempre gajos) me vinha dar mais uma senha. Na pista de dança, os investigadores libertavam-se de preconceitos e faziam figuras dignas de se ver, alguns bebiam um bocadinho mais que a conta e assumiam expressões demasiado felizes...Eu, o meu supervisor (Kristian C.) e a Ingrid (sueca/americana, minha parceira de bancada)

Vendo bem as coisas, foi um dia giro. Conheceram-se pessoas, passou-se um bom bocado e vai-se a ver e ainda houve ciência no meio daquilo tudo. Devia ser sempre assim...

12 de outubro de 2009

Recept

Receita...

5ºC em Estocolmo, 20ºC em Portimão

...para começar a semana mais cansada do que se acabou a semana anterior:

Marinar durante uma semana em trabalho intensivo até se ficar bem exausto. Retirar do trabalho e passar por um jantar internacional. Rechear de comida e bebida de vários cantos do mundo. Repousar 3 horas.

No dia seguinte, lavar bem a roupa de duas semanas e refogar lentamente uma visita ao IKEA. Preparar para uma festa de despedida, cozinhar com espumante espanhol durante 5 horas. Repousar 5 horas.

Fritar os miolos a tentar compreender uma exposição de Dali no Museu de Arte Moderna. Estufar num restaurante vegetariano. Passar uma segunda vez por um jantar internacional, recheando de comida deliciosa. Reservar no quentinho da cama até o despertador tocar na segunda de manhã...

7 de outubro de 2009

Namn

Nomes

Eu já sabia que os cientistas tinham a mania de dar nomes, vá, estúpidos, às proteínas, genes e outros que tais. Como "Sonic Hedgehog", por exemplo! Mas hoje descobri uma proteína cujo nome é (para mim) o cúmulo: "Ménage-à-trois". No comments...

6 de outubro de 2009

Tvivel

Dúvida

8ºC em Estocolmo, 24ºC em Portimão

Nunca tantas vezes como na Suécia fui assaltada por dúvidas existenciais durante simples viagens de metro ou autocarro.

A mais frequente é "Homem ou mulher?" Já sou capaz de ter mencionado o quão femininos são os homens suecos, mas também há mulheres daquelas com a mania do feminismo que se vestem à homem e tornam tudo mais complicado. Gera-se então uma espécie de diálogo na nossa mente que poderia ser algo do género:
"Homem ou mulher?"
"Muito alto - deve ser homem"
"Calças super justas - deve ser mulher"
"Ah não espera, eles na Suécia vestem-se assim - homem"
"Cabelo super liso, comprido e bem tratado e sem pêlos faciais - mulher"
"Botas de homem - homem"
"Ah, mas tem gloss nos lábios!!! - Mulher!"
"Ah mas... não tem mamas! OK, definitivamente homem... Ou "homem"..."

Outro problema são as suecas, que se vestem todas de igual. Se virem uma loura de olhos azuis com maquilhagem perfeita, calças cinzentas ou pretas, botas ou botins pretos por fora das calças, blusa branca larga com blusão de cabedal preto por cima, lenço ao pescoço e cabelo artisticamente desgrenhado, então, meus caros, estão a olhar para uma sueca. Que se veste de forma igual a 99% das outras suecas.

Qual é a confusão então?? A idade, meus caros, a idade. As suecas parecem ter uma infância que termina com a escola primária; mal chegam aos 10 anos, as suecas começam a maquilhar-se e a vestir-se como adultas - faz MESMO impressão ver miúdas (que não têm outro nome) vestidas como eu descrevi acima e completamente maquilhadas. Mas quer dizer, de que outra forma é que elas atingiam o grau de prática em que conseguem retocar a maquilhagem dos olhos com uma única mão no metro sem se cegarem com o rímel quando o condutor faz uma travagem brusca???

OK, dizem vocês, mas ainda não percebemos onde está a dúvida. Voltem comigo há umas horas atrás, quando eu estava na paragem de autocarro à espera do dito cujo. Vem uma sueca.
"Criança ou mulher?"
"Epa que cara de miúda! Criança."
"Mas está vestida com roupa de adulto! Mulher."
"É tão baixinha! Criança."
"Está na estação de metro da universidade, deve ser estudante... Mulher."
"Ah mas... Não tem mamas! OK, criança."

Eu sei que a sociedade sueca é do mais livre que existe e que não põem rótulos a ninguém, por isso as pessoas sentem-se livres para expressar a sua individualidade... Ou será que o problema é o oposto e as pessoas não rotulam porque 50% das vezes não sabem que rótulo pôr???

5 de outubro de 2009

Okunnighet

Ignorância

9ºC em Estocolmo, 24ºC em Portimão

O anúncio do prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia 2009 não foi como o do ano passado: quase que não deixaram entrar pessoas na sala (eu fui a última a conseguir!!!), apesar de haver cadeiras vazias; o entusiasmo não foi nem de perto nem de longe o mesmo; e os jornalistas pareciam uma cambada de amadores.



Consegui filmar do meu cantinho mas devido a ter que segurar a câmara numa mão e o casaco na outra o envio de mensagens foi mais crítico, só para 3 ou 4 privilegiados ;P

Depois do anúncio, e do "chairman" (fugiu-me a palavra em português) ter feito a apresentação sobre a importância da descoberta, seguiram-se as perguntas da parte dos jornalistas. Silêncio. Ninguém abriu a boca durante uns dolorosos 20 ou 30 segundos. Depois disso lá uma levanta a mão para iniciar um chorrilho de perguntas banais tais como:

"Se esta descoberta foi há 20 anos porque é que só deram o prémio agora?"
"Já falaram com os laureados?"
"Qual é o próximo passo neste campo de investigação?" (Ui, que pergunta tão específica)

E assim por diante. Parecia que ninguém na sala se tinha dado ao trabalho de ir ver afinal o que é que uma telomerase fazia, apesar de se saber que os dois vencedores mais prováveis eram ou as telomerases ou as células pluripotentes induzidas (iPS) do senhor Yamanaka que, visto terem sido descobertas só há DOIS anos, estava-se mesmo a ver que ainda não iam ganhar. Apesar disso, eram montes os jornalistas japoneses e mesmo os outros pareciam ter-se esquecido de estudar a hipótese mais provável. Foi triste, em suma. Uns meros 5 minutos de perguntas ao contrário dos 20 ou mais do ano passado. Eu sei que uma telomerase não é fácil de compreender pelo público geral - mas ainda assim, os profissionais de informação podiam ter-se esforçado mais um bocadinho...

2 de outubro de 2009

Noll

Zero

9ºC em Estocolmo, 25ºC em Portimão

Segunda foi tocar piano e ping-pong no Ginko, um dos bares mais trendy e alternativos de Estocolmo.

Terça foi o dia em que um professor italiano que veio de New York só para nos dar uma aula me chamou a sua "melhor aluna".

Quarta reencontrei o Maurijn, de quem já tinha montanhas de saudades - foi bom juntar o grupo do velho corredor de Jägargatan outra vez...


Quinta fomos ao ballet, na Ópera de Estocolmo (que é um edifício LINDO por dentro), ver "O Lago dos Cisnes". Éramos 18 pessoas, divertimo-nos imenso e o espectáculo foi óptimo, ia chorando (depois tive que aturar o Niklas a gozar comigo por ser uma romântica :D).

Sexta (hoje) foi dia da apresentação final da última cadeira a sério, que correu maravilhosamente bem. Esta noite é para descansar, porque no fim-de-semana espera-me um concerto, uma festa, uma exposição e um jantar.

E porque é que o nome do post é zero? Porque tem sido essa a temperatura matinal nos últimos dias e é algo difícil de ignorar, MESMO. Essas meninas que estão na Bélgica ou Holanda não se queixem do tempo, por favor... E das que estão em Itália / Espanha nem quero ouvir falar :P