22 de março de 2009

Fika

Tomar café


-1ºC em Estocolmo, 16ºC em Portimão

Fika é muito mais que tomar café. Fika é apenas a palavra mais importante que alguma vez poderão aprender em sueco. Os suecos vivem para "fika", tanto que se deram ao trabalho de inventar um verbo para o "acto de beber café". De preferência, e quase sempre, acompanhado de bolos e boa conversa. E ainda dizem que os suecos são pouco sociáveis…


Fika não é como o "beber uma bica" em Portugal, encostado ao balcão e a olhar para o relógio de relance. O acto de fika envolve todo um ritual. Em primeiro lugar, apesar de se poder pensar que o ingrediente mais importante da mistura é o café, na realidade é a companhia: é impensável ir fika sozinho. Número 2: há que fazê-lo sentado, com tempo e calma, num sítio agradável. E há-os às carradas em Estocolmo, desde sítios modernos e trendy, a sítios que lembram as salas das nossas avós, até uma cave mal iluminada com ar de sala de jantar medieval. E por fim, claro, há que beber café (ou chá, que o café cá não presta) e bolos a acompanhar não podem faltar.


Os suecos são gulosos. Muito gulosos. A falar a sério, em que outro local do mundo é que se lembraram de inventar um dia nacional dedicado a um bolo? Pois a Suécia tem um Dia do Kanelbulle (bolo de canela no qual estou a modos que viciada), em que toda a gente TEM que comer um kanelbulle. E os suecos aproveitam qualquer ocasião para a associar a bolos e coisas doces: no Natal come-se pepparkakor (aquelas bolachas suecas à venda no IKEA) e há um "baking day"; na Quaresma come-se um bolo chamado Semla (horroroso) em cada terça-feira do Carnaval à Páscoa; quinta-feira é dia de comer panquecas com doce e chantilly (a falar a sério, a maioria dos suecos cumpre esta tradição e até no restaurante da universidade servem panquecas às quintas); como os miúdos já devem nascer viciados em açúcar, os pais decidiram limitar a compra de doces aos sábados, e nesse dia é ver putos aos montes acompanhados pelos pais com sacos de meio quilo de guloseimas; e até os laboratórios têm um "dia do fika" em que, uma tarde por semana, toda a gente do laboratório se junta à volta de uma mesa com bolos e café para conversar de outros assuntos que não ciência.


É impossível entrar num café em Estocolmo e resistir às tentações de brownies, tarte de maçã com molho de baunilha, tarte de framboesas, mirtilos ou outras bagas que tais, bolinhos diversos com chocolate, côco, pistáchios, e calorias a montes. E os muffins!!! Os maiores que já vi estão em Estocolmo, já os mencionei em alguns posts porque a Karin do meu curso trabalha na loja que os vende e não nos deixa pagar… E há-os para todos os

gostos. Tal não é a paranóia dos muffins que hoje organizei cá no corredor uma "muffin baking afternoon". Eu, a Dasha e a Judith lançámos mãos à obra e em hora e meia fizemos cerca de 40 muffins, divididos por 5 tipos: maçã e canela, chocolate com chocolate derretido no meio,

chocolate com framboesas, banana com nozes e banana com pepitas de chocolate. Uma delícia autêntica! Os que sobraram vamos levar amanhã para o laboratório, para subornar os nossos supervisores…



21 de março de 2009

Rea

Saldos


 

5ºC em Estocolmo, 16ºC em Portimão


 

Palavra importantíssima para saber em sueco: Rea. Está por todo o lado, significa saldos, promoções, etc.

As minhas botas novas deram o berro. Que é como quem diz, não resistiram ao inverno da Suécia e o salto ficou todo descascado, já nem consigo andar com elas. O problema é que, embora já consiga calçar ténis, a maioria das minhas calças são para vestir com saltos. Ou seja, das duas uma: ou comprava umas botas novas, ou calças novas.

Depois de tentar a primeira alternativa sem sucesso semanas a fio, lá me rendi e decidi que realmente não é uma boa altura para comprar botas, com a primavera a despontar. E lá fui em busca de umas calças…

O Åhlens é um dos centros comerciais mais caros da cidade, tipo Corte Inglès, cheio de marcas. E hoje entra lá a Joana, já resignada a encontrar umas calças quaisquer caríssimas por 100 euros ou assim, quando se depara com cartazes enormes a dizer "REA 50%-70%". Liguei à Dasha para a avisar e lá nos lançámos a 2 horas de veste-despe até sair de lá com um par de calças por 45 euros e outro por 15 (!), mais um cinto preto. No fim, ainda deu tempo para passar à H&M a comprar uma t-shirt e pronto, foi a tarde de compras perfeita :D


 

18 de março de 2009

Vår

Primavera


 

2ºC em Estocolmo, 17ºC em Portimão


 

2ºC pode não soar a temperatura de Primavera, mas a verdade é que ela vem aí. Não pelo facto de o Karolinska ter um "Baile de Primavera" no próximo fim-de-semana, mas porque se nota no ar, apesar de ainda se ver nas ruas a neve a derreter. São as árvores que começam a rebentar e a mostrar um pouco de verde em vez do cinzento dos últimos meses; são flores que começam a despontar aqui e ali; é o sol que nos desperta às 6 da manhã e subsiste até depois das 6 da tarde; são as temperaturas a subir, agora 5ºC durante o dia em vez dos -5ºC médios do inverno; até as hormonas parece que andam alteradas… :)


 

10 de março de 2009

Is

Ice


1ºC em Estocolmo, 13ºC em Portimão

Se há algo que não se vê no Algarve, é extensões longuíssimas de água, vindas do mar, de repente transformarem-se numa camada de gelo de tal forma grossa que centenas de pessoas andam sobre o mesmo e atravessam de ilha para ilha como quem anda em terra…


Já quando a minha Pipoca veio cá, ela e os amigos aventuraram-se nos gelos ao largo de Djurgården. Eu, como estava de saltos, não me atrevi… Por isso quando o Gian Luca e a Dasha me desafiaram para um passeio no gelo, fiz questão de começar por calçar as minhas Allstars…


Foi lindo! Olhar para a nossa residência da "água", ver barcos e árvores presos no gelo e fazer um piquenique no gelo foram experiências inesquecíveis!


Jägargatan e o hospital vistos do gelo


Acho que este não volta a flutuar...


Quem terá sido o idiota que não pôs o barco em terra?


O Gian Luca a tentar manter-se à superfície...


Uma nova "trend": fika on ice :)

E já só faltava eu, pois claro :)


9 de março de 2009

Paketet

O pacote


1ºC em Estocolmo, 13ºC em Portimão


Já aqui disse que nada sabe tão bem como receber um pacote de Portugal… Por isso obrigada Lucinha pela encomenda! Foi mesmo transmissão de pensamento, recebi-a 2 dias depois de te ter enviado um postal… E qual não é o meu espanto quando abro a caixa de correio para encontrar uma encomenda da Sra. Enfermeira. E qual não é a minha surpresa, ainda maior, ao ver que lá dentro se encontrava um exemplar do livro "Consultório sexual da Dra. Tatiana para toda a criação". Não consigo descrever o que foi eu a andar pelo corredor da residência a rir a bandeiras despregadas enquanto lia e relia o título…


E não é que o danado do livro é interessante? Só tem um problema: é que por muito que o título original já seja curioso, não ajuda o facto de a única palavra "internacional", equivalente ao inglês, do mesmo, seja "sexual", ainda por cima escrita em enormes maiúsculas. Ou seja, depois de ter toda a gente do corredor a achar que eu era uma pervertida, e de ter tido que explicar milhões de vezes que até era um livro bastante científico, lá me recolhi à privacidade do meu quarto para a leitura.


A sério, Lúcia, se não fosses tu, como é que eu sabia que há uma desgraçada de uma mosca com 3 milímetros de comprimento que leva 3 semanas a trabalhar para produzir um único espermatozóide que mede 5,8 centímetros??? É obra… A minha vida mudou. :D


8 de março de 2009

Ett hundra

Cem


3ºC em Estocolmo, 22ºC em Portimão


Cem posts, cem aventuras, 6 meses já na Suécia. Parece que passou uma eternidade, tantos que foram os acontecimentos e tanto que a minha vida mudou. Sinto que mudei e cresci como pessoa e como (futura) cientista, vejo o mundo de uma perspectiva completamente diferente e pela primeira vez sinto que realmente estou a viver a vida.

Obrigada ao pessoal que tem lido e comentado e ajudado a tornar esta Suécia um pouco menos fria e um pouco mais próxima de Portugal! Já sabem que, apesar de estar longe, vos adoro!!!


6 de março de 2009

Hej då

Adeus

-3ºC em Estocolmo, 16ºC em Portimão


O corridor está vazio… Uma a uma, as pessoas que eram a nossa segunda família começaram a ir-se embora. Claro que há aqueles que ficam, como a Dasha, a Shermaine, a Clarissa e o Maurijn, e aqueles que vêm, como o Mario, que se muda para o 5º andar amanhã. Ainda assim, dizer adeus foi difícil…


A primeira a ir foi a Sabrina, a alemã do 5º andar. Fomos almoçar com ela ao departamento de Farmacologia para nos despedirmos da nossa companheira de festas e saídas, a meio de Janeiro… Depois o Albert, no final de Janeiro – essa foi a primeira despedida que realmente custou. De repente apercebemo-nos que podíamos ter passado muito mais tempo juntos e nos últimos dias sentimos necessidade de compensar, de fazer o dobro, de aproveitar cada minuto. Na festa de despedida estavam mais de 30 pessoas…

Passa-se um mês e de repente, numa semana, vão-se mais 5. A Claudia, italiana do andar -1, despediu-se dos amigos entre lágrimas e abraços, na quinta à noite. Na sexta à noite, foi altura de dizer adeus à Vivi, numa festa com direito a crepes franceses, antes da sua partida para Paris. Mas a despedida que custou mais foi a da “Delegação Holandesa”. Ontem de manhã, a Jacomijn, a Madelinde e o Martijn deixaram Estocolmo para voltarem à Holanda, de comboio. A sua festa de despedida, no sábado passado, juntou imensa gente e nesta sexta, a última festa em que estivemos juntos, foi cheia de emoções quando entregámos às duas meninas “scrapbooks” feitos por nós com fotos dos melhores momentos em Jägargatan, comentários e os nossos contactos.

O que fica? Ficam as memórias de bons momentos passados juntos. Fica o espólio que cada um deixa para trás, repartido entre os amigos: a Sabrina deixou um postal na caixa de correio de cada amigo; o Albert deixou-me alguns temperos e chá; da Claudia fiquei com café e “body warmers”; já a Jacomijn e Madelinde, deixaram-me a mim e à Judith a tarefa de tomar conta do seu “armário dos bolos” (cheio de coisas para fazer bolos), e ainda fiquei com uma caneca, vela, incenso, uma toalha, temperos. Parece ridículo, mas antes da partida há sempre esta espécie de leilão em que se distribuem as coisas que não dá para levar…


Mas mais que as coisas, fica a promessa de que a amizade vai continuar e não vai desaparecer com a distância…