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Na segunda-feira tivemos mais um jantar no Vapiano, com várias pessoas do curso a decidirem ir.
Eu tinha ido para casa logo após o exame, por isso não estava ao corrente dos interessantes acontecimentos dos últimos dias e daquela tarde. Assim, quando cheguei ao jantar, não pude deixar de estranhar que toda a gente falasse do Kanwal.
O Kanwal é (era?) o indiano do nosso curso, uma pessoa extremamente estranha. Com 35 anos, comportava-se como uma criança, sem perceber coisas tão elementares como “na Suécia não se abraça toda a gente”, sem noção de espaço pessoal ou mesmo das mais elementares regras de educação, mas também uma criança no sentido que se encantava com as mais pequenas coisas. O seu péssimo inglês dificultava a comunicação e a sua prestação nos exames, já que chumbou nos poucos que fez. Era uma daquelas pessoas que arrepiavam por nunca se saber o que esperar dali e por alguns factos estranhos acerca dele, nomeadamente o facto de ter sido expulso do seu país e não poder regressar.
Lembro-me de vos ter contado a confusão que ele armou numa festa cá do prédio com o Neil. Dessa vez, ele estava a ser ele mesmo, a abraçar-se a toda a gente (até pessoas que não conhecia) e quando o Neil lhe disse para sair, ele respondeu que se quisesse, podia arranjar maneira de assassinar o Neil dentro de um mês (gosto deste pessoal que dá uma “deadline” – neste caso literal - , assim a pessoa tem tempo pra se despedir de família e amigos). Dessa vez acreditamos que ele não estava a falar a sério, apesar de ter tentado bater no Neil e de haver rumores de eventos numa estação de metro em que ele terá batido num tipo que disse mal da Índia.
Resumindo: na semana anterior ao jantar no Vapiano (há cerca de 2 semanas), o Kanwal começou a ligar a várias pessoas. À Dasha, à Iskra, Karin, Haythem, e os dois tipos do Bangladesh. Ligar insistentemente e compulsivamente. Para a Dasha, ligou umas 10 vezes em que a Dasha atendesse, e depois passou a ligar anonimamente até que a Dasha atendeu, e convidou-a para uma festa na casa dele, e quando a Dasha lhe disse que tinha que estudar, ele respondeu: “podes trazer os livros e ficar no meu quarto… podes ficar no meu quarto para sempre…” Lol. O grave é que para outras pessoas foi bem pior: para a Iskra ligou dezenas de vezes a dizer que a amava, apesar dos pedidos dela para ele parar de lhe ligar; com a Karin, foi agressivo e gritou com ela ao telefone; e ao que parece, ao Haythem terá dito que “Se isto continuava assim, ainda o forçavam a enveredar pela via criminal outra vez…” O que quer que isso queira dizer. Escusado será dizer que algumas pessoas andavam bastante nervosas com o assunto (eu não, só soube mais tarde), e decidiram que, naquela segunda-feira do jantar, era altura de fazer algo. E então foram à associação de estudantes, reuniram com eles, e em conjunto decidiram que o melhor era avisar os responsáveis pelo mestrado, porque, mesmo descontando as supostas ameaças, o que ele andava a fazer era no mínimo assédio. E então telefonaram ao nosso chefe (que por acaso é uma pessoa impecável, muito fixe mesmo) que disse que ia tratar do assunto.
Ao jantar, falava-se de tudo isto e havia pessoas, como o Mustafa, que arranjavam maneira de contar piadas sobre o assunto, algumas bem sádicas, lol.
No dia seguinte, ao chegarmos às aulas, o Kanwal não estava lá, mas sim 3 dos nossos administradores, que foram super atenciosos, disseram-nos que tínhamos feito a coisa certa ao contactá-los e ofereceram ajuda psicológica para alguém que precisasse, como a Karin, que andava nervosíssima. O Kanwal acabou por chegar, atrasado, e mal assomou à porta o Dan (o nosso “chefe”), obstruiu-lhe a passagem e levou-o lá fora para uma conversa. Dessa conversa resultou que o Kanwal aceitou ser internado na Unidade Psiquiátrica do hospital – parece que ele andava em consultas com o psiquiatra há muito tempo, e andava medicado, mas que agora que as irmãs, com quem vive, foram de férias para a Índia e ele ficou cá, deixou de tomar os medicamentos, ficando por isso um pouco alucinado. No final, acabou por ameaçar as únicas pessoas que ainda se davam com ele e alienar os poucos amigos que tinha. Como disse o Mario, as doenças mentais são tristes, e ele claramente tinha um problema qualquer.
Nunca mais vimos o Kanwal e não sabemos se ele vai voltar ao curso.
14 de dezembro de 2008
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1 comentário:
Meu Deus Jo, que história. Até fiquei arrepiada. :S
Fizeram bem em reportar isso... distúrbios mentais são muito maus, e deixarem isso passar podia dar mau resultado.
Imagino o estado em que não ficaram os teus colegas a quem ele chateava!
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