21 de novembro de 2008

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Encomenda

-2ºC em Estocolmo, 18ºC em Portimão

Lembro-me de inúmeras conversas de professores da escola que “exportaram” os filhos para outros países… O David está nos EUA, a Lara em Inglaterra, o Manel no Luxemburgo. Tudo parece fácil, “straight-forward”, quando toca aos outros, e nem paramos para pensar no que significa essa ausência para eles e para as famílias… Até que nos toca a nós e então apercebemo-nos do que realmente implica uma pessoa dizer “o meu filho está do outro lado do mundo”.

Para a família, é ver a partida no aeroporto e saber que não vão ver a filha(o) / irmã(o) durante meses, é a casa vazia, responder às perguntas das pessoas sobre nós todos os dias, “ela está bem, muito frio por lá…”, tentar manter os dias o mais ocupados possíveis porque quando se volta a casa esta está vazia, e só restam ecos de risos, memórias, conversas. É esperar, contar os minutos pelas conversas no Skype e dar graças pela invenção da Internet, que permite ver a pessoa querida do outro lado, em tempo real, em vez de se contar os segundos de uma chamada internacional, demasiado cara, ou tentar ler nas entrelinhas de uma carta escrita vários dias antes de chegar ao destino. E enquanto se fala no Skype, por momentos, a cara e a voz que conhecemos voltam a encher a sala e aliviam a saudade…

Para nós, os “emigrados”, é a descoberta: um país novo, uma cultura nova, uma língua para aprender, pessoas para conhecer, e trabalho, que afinal foi para isso que para cá viemos. Há dias em que tudo parece normal, já nos habituámos à rotina, a ter aulas todos os dias e exames de duas em duas semanas, a ver o pôr-do-sol às 3 da tarde, a vestir quilos de roupa antes de sair à rua, a chamar os nossos amigos por nomes como Shermaine, Dashinka, Mustafa ou Khairun, em vez dos antigamente habituais João, Tânia, Cláudia, Cristiana… Falar em inglês o dia inteiro já não é estranho, e algumas palavras começam a sair mais facilmente nessa língua do que em português. E a verdade é que andamos sempre tão ocupados que a maior parte das vezes nem pensamos “Ah é verdade, estou na Suécia!”

Mas há dias… Há dias em que voltamos do supermercado, de sacos na mão, apressados de volta a casa, e em que, num momento aleatório e sem nada de especialmente diferente do momento anterior ou do momento seguinte, paramos no meio da estrada, olhamos em redor, para a noite escura que nos envolve às 4 da tarde, para os prédios de tijolo vermelho, para um casal que passa por nós em conversas que não conseguimos decifrar, cabelos louros, por vezes quase brancos de tão claros, olhos azuis e pele clara, o tempo é gélido e as roupas grossas, e quando chegar a casa sei que não vou ter o acolhimento da família nem um caldo verde quentinho nem um arroz de pato acabado de sair do forno… E é então que olho em volta e penso: “é verdade, estou na Suécia!” e a saudade aperta…

É por isso que sabe tão bem receber uma encomenda. Um pedaço de Portugal transportado para a Suécia, uma ligação entre os dois mundos que nos fazer recordar: é dali que eu venho. A casa que conheci ainda existe, com as minhas pessoas, as minhas coisas, os meus sabores. E saber que posso lá voltar um dia…


"Postal dos correios (João Gil)

Querida mãe, querido pai. Então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo 'expresso' que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça pra merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidade na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de 'candeio'?

Já não tenho mais assunto pra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal"

2 comentários:

Cristiana disse...

Desta vez fiquei com a lagriminha no olho!

Cada vez mais nos consideramos cidadãos do mundo...mas não conseguimos evitar dizer:
-Lar doce lar!!

E este cantinho à beira mar plantado, onde o sol brilha (quase) todo o ano estará sempre aqui, assim como a família e amigos!!

Por isso aproveita essa aventura e até jáaaaa!

Beijinhos!

Unknown disse...

Maninha,

Por maior que seja a distância, ela não é grande o suficiente para impedir que estejas sempre conosco.

Seja nos bons ou nos maus momentos, estamos sempre contigo, apesar de sentirmos a tua falta!!

Nos momentos mais dificeis lembra-te que a família e os amigos estão sempre conosco po que der e vier e lembra -te...

A tua força e perseverança vão levar-te a sítios destinamos a muito poucos!!

Vai...e conquista o MUNDO!!

Amén (LOL)